Joelmir Beting
Feriado americano, ontem, adiou para hoje a hora da verdade cambial no Brasil. O mercado livre tem tempo e juízo para encontrar o ponto de equilíbrio para a cotação do real ainda esta semana. A menos que alguma carranca do FMI ou alguma trapalhada do Congresso, do governo ou do Itamar despeje mais um barril de éter no bico do maçarico da neura global.
Com o alargamento da banda cambial, na semana passada, o governo serviu um misto-quente de 9% ao mercado faminto e sedento. O mercado rejeitou a dieta e acabou descolando um lanche reforçado de quase 18%. Para esta semana, há quem aposte num ponto de equilíbrio da ordem de 25%. Antes da abertura da banda estreita, metade dos analistas jurava, por todos os juros, que um ajuste cambial de mercado cravaria uma desvalorização de até 30% em relação ao dólar americano. A outra metade admitia algo em torno de 20% no máximo. O mercado está com a palavra.
Teoricamente, o câmbio justo, em qualquer tempo ou lugar, está chumbado a um cenário de equilíbrio macroeconômico acaciano. No momento brasileiro, esse equilíbrio geral teria o seguinte formato: 1) inflação abaixo de 3% ao ano; 2) crescimento do PIB acima de 6% ao ano; 3) ocupação da capacidade instalada das empresas de 85% no mínimo; 4) taxa básica de juros de 7% ao ano; 5) crédito bancário ao setor privado de 70% do PIB; 6) déficit público nominal abaixo de 3% do PIB; 7) déficit externo em conta corrente de até 2% do PIB.
Fácil, não? Pois, desses sete pressupostos do equilíbrio geral só deitamos a mão de gato no primeiro: inflação abaixo de 3% ao ano. A expansão do PIB, devagar, quase parando, resvala agora para a recessão. A capacidade ociosa das empresas aproxima-se de 30%, com desemprego recorde. A taxa básica de juros está quatro vezes maior que a da média global. O crédito bancário ao setor produtivo não tem passado de 30% do PIB (cerca de 3,5% do PIB em 31 de dezembro). E o déficit externo transita acima de 4,2% do PIB.
Resumo da ária Nessum Dorma: estamos um bocado distantes do equilíbrio geral. O que faz da taxa de câmbio, nas mãos do mercado, um número volátil, por tempo indeterminado. Ainda assim, mais vale um câmbio volátil, na praça do mercado aberto, do que um câmbio mágico, na jaula do Banco Central. Ou para usar o trocadilho do motorista de táxi: mais vale a banda rota do que a bancarrota.
Para ajustar as contas públicas, rebaixar juros e impostos, reativar a economia e alcançar o equilíbrio geral, a ordem é acelerar e aprofundar o ajuste fiscal na União e inaugurar o desencadear do ajuste fiscal nos Estados - começando por Minas Gerais, com sua impagável República do Juízo de Fora.
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