Joelmir Beting
A união Européia não é uma fusão física de Estados nacionais. É uma justaposição jurídica de 15 países, a caminho de 18 no ano que vem. Do megabloco, 11 países toparam participar da moeda única, a primeira da história. Ela se chama euro e faz sua estréia solene nesta próxima sexta-feira, 1. de janeiro de 1999. Durante três anos, o euro não passará de moeda escritural ou meramente contábil. Até 31 de dezembro de 2001, a futura moeda única estará coexistindo com as moedas dos 11 países dessa comunhão monetária de primeira viagem.
Cada moeda nacional estará vivendo seus últimos três anos indexada diariamente pelo euro contábil. O valor inicial do euro, o do dia 1. de janeiro, será fixado pelo novo Banco Central Europeu (BCE) ao fim da tarde de quinta-feira, 31. A cotação de partida do sistema resultará da média ponderada do valor atual das 11 moedas do bloco de estréia. BCE exercerá o poder supranacional de fixar as taxas de juro dos países membros, a paridade cambial com qualquer outra moeda e a data e a dose das emissões ou contrações do euro.
A construção da moeda única constitui o experimento mais ousado da história econômica dos povos. Tão ousado que o euro vem à luz sem desfrutar de um pingo de unanimidade dentro e fora da União Européia. Pesquisas de última hora indicam que dois terços dos cidadãos dos 11 países mapeados pelo euro torcem o nariz para a aventura da moeda única. Cujo advento é tolerado e não festejado. Até mesmo entre os acadêmicos europeus o racha está configurado: metade a favor, metade contra.
Que tal ouvir o principal teórico da moeda, o americano Milton Friedman, 87 anos, Prêmio Nobel de Economia? Ele diz que a concepção da moeda única é precoce até mesmo para a comunidade econômica européia, que completa 42 anos de integração progressiva e melindrosa. Ele aponta armadilhas técnicas no formato e na operação do euro. Questiona interesses políticos de governantes da vez na carpintaria da moeda única. E aponta os riscos da rejeição popular do euro por obra de armaduras culturais legítimas. Entre estas, a da identidade nacional: Ninguém abre mão da bandeira, do hino e da moeda. Muito menos por mero capricho de burocratas alienados.
Para Milton Friedman, o certo seria a criação da moeda comum e não da moeda única. A moeda comum passaria a coexistir com cada uma das moedas nacionais dos 15 países da União Européia. Ela teria o mesmo caráter escritural, de reserva contábil, que o próprio euro assume nesta transição de três anos para a moeda única. Ou excludente. Um dia, suspira Friedman, o mundo todo acabará convergindo para uma autêntica moeda comum. A Europa seria a melhor cobaia dela.
Secos & molhados
E a rainha?





