Joelmir Beting
Nova York - Do alto de um PIB que fecha o ano com a marca recorde de US$ 8,4 trilhões, a economia americana não tem medo de reprise da Guerra do Golfo made in USA e não se abala com a ignição do processo de destituição do presidente Bill Clinton. O bombardeio high tech do Iraque desobediente refertiliza o prestígio popular da chamada indústria da defesa nacional. Ela emprega diretamente 12 milhões de americanos e serve-se das ousadias globais do Pentágono para faturar negócios diretos e indiretos de US$ 285 bilhões por ano. A guerra fria acabou? O mercado dela prospera.
Uma eventual remoção cirúrgica de Bill Clinton da Casa Branca de vergonha igualmente passa ao largo das preocupações dos executivos das empresas americanas. E está longe de solapar a confiança dos consumidores no rumo e no ritmo da economia. Ela fecha o oitavo ano de expansão sustentada em clima de verdadeira farra de consumo nesta chegada do Natal mais eufórico da década. Pesquisas de opinião (são dezenas) divulgadas no fim de semana podem ser assim compactadas: 77% dos americanos aprovam os raids exorcistas contra Saddam Hussein e 64% desaprovam o impeachment ou a renúncia do presidente travesso.
Para o mercado financeiro, que é do ramo do sobressalto, essa fusão da crise política interna com a crise militar externa pode produzir soluços ocasionais. Para a economia real, nem mesmo a probabilidade de uma destituição legiscrativa de Bill Clinton causa qualquer arrepio. Afinal, o gigante do capitalismo move-se com as próprias pernas. O atual ciclo longo de prosperidade, no conceito perpetuado por Kondratief, resulta não de um projeto do governo, mas de um processo do sistema. Bill Clinton ou Al Gore, tanto faz.
O governo americano navega na popa e não na proa da economia nacional. Ele só tem atuação de frente na regulação do comércio exterior. A política cambial é neutra, para não dizer passiva. E a política monetária - expansionista ou contracionista - não é da competência da Casa Branca, mas de um banco central (o Fed) tecnicamente autônomo e politicamente independente. Porque situado, constitucionalmente, acima do governo e acima do Congresso.
O Congresso fala grosso é na política fiscal. Pois as contas públicas de Washington estão bem comportadas. O déficit nominal não passa de 1,6% do PIB, malgrado o crescente buraco negro do orçamento da Saúde. Alergia maior está no déficit externo em conta corrente, da ordem de 2,5% do PIB. Ou cerca de US$ 212 bilhões.
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