Sinal dos tempos da crise global sem aviso prévio: ‘‘Os economistas nunca sabem coisa alguma. A não ser com 20 anos de atraso. No que eles funcionam menos como economistas e mais como historiadores. Não há gente que aprenda mais devagar com as lições da realidade do que os economistas. Simplesmente porque não há obstáculo maior à aprendizagem do que ser prisioneiro de teorias empíricas e dogmáticas. Os economistas comportam-se intelectualmente como os teólogos da Idade Média: prematuramente dogmáticos.’’
Assinado: Peter Drucker, 89 anos, jornalista, ensaísta, escritor, filósofo e ‘‘papa’’ da revolução administrativa das empresas nesta segunda metade do século que termina. A provocação que destila na direção dos economistas aparece numa entrevista à revista Inc., edição de outubro de 1985. Ou uma década antes da eclosão da fuzarca global. Drucker questiona o ‘‘dogmatismo impune’’ dos economistas distanciados da realidade das empresas, dos mercados e das expectativas humanas. ‘‘Na maioria, são engenheiros de pontes que desabam e ninguém se importa com isso.’’
A entrevista de 1985 ainda tem luz no presente: ‘‘Não temos teoria econômica para explicar as transformações que se observam no mundo real. Muito menos para recepcionar as mudanças ainda mais profundas que se desdobram neste final de século. O que temos de sobra é um exército de economistas dogmáticos que tem tudo a ver com o exército de teólogos medievais. A diferença é que centenas de teólogos acabaram canonizados pela verdade da fé. E quantos economistas já foram canonizados pela verdade da ciência? Adam Smith e lorde Keynes? É muito pouco.’’
Peter Drucker diz que metade dos economistas afina-se com o otimismo de Turgot, que definiu a economia como sendo ‘‘la science do bonheur públic’’ (a ciência da felicidade pública). A outra metade prefere fechar com o ceticismo de Carlyle, para quem a economia é a ‘‘the dismal science’’ (a ciência sinistra). No sentido de que o bicho-homem jamais logrará o desenvolvimento sem sacrifício, o bem- estar sem trabalho e a justiça social sem renúncia. Ou diria Friedman: ‘‘Não existe almoço de graça.’’ Viramos o terceiro milênio a bordo da explosão pirotécnica das ciências do meio físico. Mas pouco avançamos, neste século, na contribuição efetiva das ciências do meio social para a construção da sociedade politicamente aberta, economicamente forte e socialmente justa.
Formado na Áustria e radicado nos Estados Unidos, Peter Drucker pincela o auto-retrato: ‘‘Não sou neoliberal nem neoconservador. O neoconservador é o intelectual que começou pela esquerda e se decepcionou com ela. O neoconservador é hoje um liberal antiquado que contesta o governo e censura o mercado. Sou um velho conservador de uma idéia-mãe: qualquer sistema social sem molejo, que se apóia em valores absolutos, não dura muito. Se politicamente fechado, ainda que economicamente frágil, pode durar algumas décadas. Mas jamais um século.’’



Secos e molhados
Depressão

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