O governo teve de anunciar aumento de impostos e redução de empregos na reta de chegada do primeiro turno. Mesmo assim, o presidente Fernando Henrique Cardoso conseguiu reeleger-se já no primeiro turno, repetindo a façanha de 1994. Com a diferença: na eleição anterior, a sociedade brasileira estava em estado de graça, respirando o alívio da estabilização após quatro décadas de inflação. Nesta eleição, ela estava em estado de transe, espancada pelos estilhaços de uma crise financeira global sem cabresto e sem remorso.
Quer dizer: a oposição perdeu o bonde da História que passa, chutando o pênalti da crise para as nuvens. Talvez não consiga outra chance de ouro como essa. Ela igualmente não teve tutano para erodir a sustentação parlamentar de FHC. Que estará no segundo mandato com 68 dos 81 senadores e com 381 dos 513 deputados. Um capital político preservado pelas urnas do segundo turno: a bancada de 27 governadores, o verdadeiro partido político brasileiro, coloca 20 Estados alinhados com FHC. E os outros 7, de oposição, na condição de reféns do ajuste fiscal que se aproxima.
Resumo da opereta eleitoral: o governo tem condição política de sobra para costurar o saneamento financeiro (e administrativo) do setor público na União, nos Estados, nos municípios, na Previdência e nas estatais. Um ajuste que deveria ter sido executado por José Sarney, o estadista, nos gloriosos tempos da Nova República, com seu Muda Brasil feito de carta branca popular, de uso do decreto-lei e de partido quase único, o então PMDB de Ulisses Guimarães. Um ajuste que deveria ter sido encarado por Itamar Franco, na revisão constitucional com data marcada, em outubro de 1993.
Com pelo menos 20 anos de atraso, lá vamos nós para um primeiro ajuste fiscal digno do nome. Pela primeira vez, desde Pedro Álvares Cabral, a opinião pública brasileira acorda plugada nas contas do presidente, do governador, do prefeito. Pela primeira vez, desde dom João VI, o cidadão brasileiro faz ligação direta entre a gastança pública e a desesperança coletiva. Pela primeira vez, desde Deodoro da Fonseca, estamos caindo na real: o déficit público, detestado nos efeitos, não pode continuar adorado nas causas. Desde Eurico Gaspar Dutra, o governo não governa porque não se governa e não se deixa governar.
Ajuste fiscal digno do nome? Depende do conteúdo da caixa-preta já levada ao FMI. O ajuste fiscal estaria na redução dos gastos e dos desperdícios na coluna da despesa. E na coluna da receita, o ajuste olímpico estaria não no aumento escapista dos impostos, mas na cobrança severa dos tributos já existentes. Uma nova sobrecarga tributária acabará punida pela economia e pela sociedade. Com mais recessão e mais sonegação.


Secos & Molhados
Bode russo

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