Da ordem de 34% do PIB, a dívida pública, lastreada em títulos federais, estaduais e até municipais, foi inventada para financiar o déficit dos governos, hoje ao redor de 3,5% do mesmo PIB. A rolagem dessa dívida inflaciona os juros para o governo e, por tabela, para toda a economia. Porque o título público, até na Suíça, é um contrato de risco. Maior o risco, maior o juro. Maior o juro, maior o custo. Maior o custo, maior o risco. Maior o risco...
No caso brasileiro dos últimos tempos (com sua ‘‘overdose’’ de austeridade monetária), não é mais o déficit que provoca a dívida. Com juros na ionosfera, é a dívida que aumenta o déficit. Logo, a ordem marcial é reverter espertamente essa corrida para o pantanal. Se privatizações de R$ 11 bilhões, prometidas para o ano que vem, contribuírem para o abatimento da dívida mobiliária, eis consumado o interesse maior da pátria estremecida.
Há exatamente três anos, na revista Exame, Mário Henrique Simonsen escrevia sobre os ‘‘custos da espera’’. Seguinte: a valorização das estatais em bolsa (elas que sugam quatro quintos do dinheiro que trafega no mercado secundário de ações) tem sido historicamente menor que a elevação compulsiva dos juros da dívida mobiliária. Ano passado, com a explosão dos juros encomendada pela chantagem emocional do Efeito Tequila (o blefe acadêmico da década), a dívida simplesmente dobrou.
Para Simonsen, a questão da privatização deveria estar centrada na qualidade e na velocidade dela e não, como até aqui, na necessidade dela: ‘‘A privatização não precisa ser veloz nem lenta. Precisa ser, acima de tudo, inteligente. Ocorre que o modelo adotado pelo Brasil nada tem de inteligente.’’
Simonsen pondera: se a poupança privada é pequena e mal direcionada, porque concentrada na especulação com renda fixa, uma oferta em bloco de estatais derrubaria o valor de mercado de todas elas - já abaixo dos respectivos valores patrimoniais. Então, o negócio é trocar os leilões de cartas marcadas (servidos por acordos de grandes capitalistas) pelo modelo tatcheriano da oferta pública, capilar, popular. Tal como acaba de fazer, com sucesso, a Telekom germânica.
Em resumo: o que desvaloriza (ou não valoriza) o patrimônio à venda não é a oferta grande nem a pressa dela: é a concentração do negócio em apenas dois ou três grupos interessados.
Um atalho

- No comércio exterior, não basta saber produzir nem saber vender. Não menos importante é saber financiar. Com prazos e juros internacionalmente competitivos. Nas duas pontas: a do exportador, aqui dentro, e a do comprador, lá fora.
Vamos lá
- Algo parecido com financiamento competitivo foi lançado, ontem, no Rio, pelo ministro Antônio Kandir, no encontro nacional dos exportadores. Para o ministro, o novo pacote financeiro alivia a barra da defasagem cambial. Será?
Pra valer
- A promoção das exportações acaba de resvalar do campo técnico para a arena política. O presidente Fernando Henrique Cardoso vestiu a camisa do ‘‘exportar é o que importa’’. E passa a investir a ‘‘vontade política do governo’’ na área.
Meio milhão
- Cada US$ 1 bilhão a mais de exportação abre 50 mil novos empregos na economia. O Brasil pode aumentar as vendas externas em US$ 10 bilhões por ano. O que significaria uma oferta adicional, em 1997, de meio milhão de novos empregos.

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