Japão se mobiliza contra alta do iene
Tendência de valorização da moeda japonesa diante do dólar dificultaria o crescimento do país
Arquivo FolhaBolsa de Tóquio vive semana tensa com queda de ações de exportadores
Paul Abrahams
De Tóquio
O Ministério das Finanças do Japão e o Banco do Japão (banco central do país) andam em descompasso, mas eles e o resto do país querem impedir a valorização do iene.
O medo de que a tendência de alta da moeda em relação ao dólar se mantenha nas próximas semanas, prejudicando os bons índices da recuperação econômica do Japão, tem provocado quedas na Bolsa de Valores de Tóquio e muita tensão no mercado. As empresas exportadoras, que se beneficiam quando o iene está menos valorizado, são as que sofrem maior especulação.
O banco pretende oferecer amplos recursos ao mercado de dólar de curto prazo, a fim de ajudar a conter a valorização da moeda japonesa diante do dólar, afirmou Masaru Hayami, presidente do Banco do Japão.
A declaração surgiu como resultado das preocupações causadas pela alta súbita e acentuada das taxas de juros de curto prazo, provocada pela necessidade de as instituições financeiras japonesas terem grandes quantias à disposição para atenuar os problemas que podem ocorrer na passagem para o ano 2000.
Ainda que o Banco do Japão tenha emprestado o recorde de 2 trilhões de ienes (US$ 19,6 bilhões) nesta semana, a taxa interbancária oferecida, de um mês, chegou a 0,8571% ao ano, contra 0,8714% na última sexta-feira.
A alta nas taxas de juros de curto prazo está sendo apontada como um fator que contribuiu para a valorização do iene.
Nesta semana, o dólar norte-americano caiu à cotação de 101 ienes por dólar pela primeira vez em quase quatro anos.
Em reação, o Ministério das Finanças japonês ordenou uma pesada intervenção nos mercados a fim de reduzir o valor do iene. No entanto, o efeito dessa intervenção foi atenuado pelo Banco do Japão, que esterilizou os efeitos da intervenção ministerial ao vender ienes logo depois.
O banco central se recusou a mudar sua política, alegando que isso perturbaria o funcionamento normal da estrutura monetária.
O Banco do Japão é uma instituição independente, e o Ministério das Finanças não tem poderes sobre sua atuação.
Os mercados começaram por ignorar os comentários de Hayami, que pareciam simplesmente confirmar a política do banco.
O Banco do Japão vem sofrendo considerável pressão política por uma mudança de posição, devido a temores de que uma alta do iene possa solapar a frágil recuperação da economia do país.
Quando a economia japonesa fica dependente da demanda externa, uma cotação cambial na casa dos 102 ienes por dólar é alta demais, afirmou, no início da semana, Hiroshi Okuda, presidente da Nikkeiren, a maior federação de empregadores do Japão.
Segundo ele, é esperado e necessário que o dólar se estabilize acima da cotação de 110 ienes para que o país retome sua tranquilidade.
Eisuke Sakakibara, ex-vice-ministro das Finanças, encarregado de assuntos internacionais, e conhecido como Mister Iene, advertiu ser fundamental para o país a contenção da moeda japonesa. Com a valorização, a retomada demoraria, disse Sakakibara.
Seu sucessor no posto de vice-ministro das Finanças, Haruhiko Kuroda, também fez um alerta, alegando que uma alta excessiva do iene não é desejável para a economia japonesa e mundial.
Tradução de Paulo Migliacci





