Itamaraty é contrário a retaliação
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quarta-feira, 15 de dezembro de 2004
Folhapress 
Brasília - Enquanto o Ministério do Desenvolvimento adota um tom de ameaça contra a Argentina, o Itamaraty prefere continuar negociar e evitar retaliações. O ministro Luiz Fernando Furlan (Desenvolvimento) diz a assessores que já perdeu a paciência com os argentinos. Seu colega Celso Amorim (Relações Exteriores) insiste em manter a calma e não quer que disputas setoriais contaminem as relações entre os países.
Na segunda-feira, o secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior (Camex), Mário Mugnaini, afirmou que o Brasil poderá adotar medidas de salvaguarda contra produtos agrícolas argentinos. ''Se eles insistirem (em restringir importações brasileiras), podemos adotar medidas equivalentes'', disse Mugnaini, durante entrevista em Brasília. O Itamaraty não gostou da declaração. ''Quando vejo um alto funcionário ameaçando retaliações, eu penso que esse não é o espírito que temos trabalhado'', disse Amorim, em conversa com assessores.
De acordo com Mugnaini, os produtores brasileiros de vinhos, arroz, alho, cebola e trigo pedem ao governo restrições à entrada de importações da argentina. Ele disse que os representantes desses setores conversaram com o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o assunto.
Para o Itamaraty, retaliar a Argentina pelas medidas que adotou contra produtos brasileiros é uma estratégia que só trará prejuízos para os dois lados. Na opinião de Amorim, o governo precisa compreender que a Argentina vive um problema interno.
Apesar de mostrar mais paciência que o Desenvolvimento, o Itamaraty também não sabe como resolver pendências com a Argentina e afirma que muitas vezes o parceiro exagera nas ameaças. A maior compreensão do Itamaraty em relação aos argentinos não se baseia apenas na importância estratégica que Amorim dá ao fortalecimento do Mercosul. Os dados da balança comercial também mostram que a sociedade com a Argentina, apesar da barreiras às vendas de produtos de linha branca, televisores, sapatos e têxteis, é proveitosa.
Neste ano, as exportações para o vizinho brasileiro baterão seu recorde histórico. Devem superar pela primeira vez a casa dos US$ 7 bilhões. O recorde anterior é de 1997 - US$ 6,77 bilhões. Os argentinos, por sua vez, não conseguiram elevar suas vendas para o Brasil aos níveis anteriores ao da crise brasileira de 1998. Entre janeiro e outubro deste ano, os argentinos venderam para o mercado brasileiro US$ 4,49 bilhões. Em 1998, as vendas anuais chegaram a US$ 8,02 bilhões. Além das vendas para a Argentina apresentarem maior dinamismo do que as compras, o Brasil, pela primeira vez desde 1995, terá saldo comercial positivo com o vizinho. Até outubro, o superávit era superior a US$ 1,5 bilhão.


