O excedente de produção de mandioca levou o setor a reivindicar do governo e da indústria moageira de trigo a inclusão da farinha de mandioca na farinha de trigo. A proposta não foi bem aceita pela Associação das Indústrias Moageiras de Trigo (Abitrigo), na semana passada. Esta semana foi a vez da Embrapa e do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital) darem parecer contrário.

Para o pesquisador Rogério Germani, da Embrapa Agroindústria de Alimentos, que durante sete anos pesquisou o assunto, a mistura é inviável principalmente pela vulnerabilidade do trigo à qualquer adição na sua composição própria. ''A qualidade do trigo depende da sua origem, tipo de manejo, clima e, em escala industrial, principalmente na indústria de panificação, a adição seria desastrosa'', destacou o pesquisador. Germani também afirmou que ao invés do setor mandioqueiro pressionar a volta da obrigatoriedade da mistura, deveria sugerir ao governo federal algum tipo de incentivo fiscal, como desconto em impostos, para a indústria que ''voluntariamente'' utilizar a farinha de mandioca misturada com a farinha de trigo.

A idéia é compartilhada pelo pesquisador científico do Ital, Antenor Pizzinatto, que durante as décadas de 70 e 80 intensificou as pesquisas sobre a potencialidade do uso da mandioca. Para Pizzinatto não é obrigação dos moinhos viabilizarem a mistura. Segundo ele, na prática, e pensado em grandes produções, a mistura só teria uso econômico garantido no segmento de bolachas doces. ''Nesse caso a adição de fécula de mandioca poderia substituir, em média, de 10% a 15% de farinha de trigo, e representa a porcentagem de amido necessária no preparo dessas bolachas'', informou.

Mas Pizzinatto ressalta que para isso o setor mandioqueiro teria que se organizar melhor e garantir preços competitivos, qualidade do produto e fluxo de entrega. ''Atualmente, o amido utilizado nas bolachas doces, na sua maior parte, é derivado do milho, mas o setor mandioqueiro tem potencial para transformar esse mercado em seu 'filão''', destacou.

A falta de um sistema na produção de mandioca também foi abordada por Pizzinatto como uma das causas que impedem uma comercialização adequada do produto. ''Na verdade, o que mais acontece é que as indústrias não querem fazer contratos com os produtores, garantindo um preço médio e justo pela raiz, e sem isso o setor de mandioca fica desmotivado, à mercê, e a comercialização torna-se desequilibrada'', finalizou o pesquisador.

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