Isonomia competitiva
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 11 de janeiro de 1999
Miguel Ignatios 
O que poderá acontecer com o universo das empresas brasileiras (de todos os portes) durante o ano de 99, vis-a-vis a concorrência das smilares estrangeiras atraídas para o Brasil pela globalização? O tempo do protecionismo já acabou e uma mexida no câmbio também não resolveria a questão da competitividade. Traria apenas como resultados saldos comerciais positivos durante um ou dois anos. É pouco. A questão, portanto, é mais complexa: trata-se de colocar em prática uma política de médio e longo prazo capaz de dar às empresas brasileiras isonomia competitiva em relação às concorrentes estrangeiras.
O governo deverá ao longo do próximo ano definir as medidas necessárias para criar esse cenário de isonomia competitiva.
Em recente palestra sobre a globalização na América Latina, o presidente do Conselho de Administração das Odebrecht S/A, Emílio Odebrechet, alertou as autoridades brasileiras para os perigos de desnacionalização do setor produtivo brasileiro em consequência de uma exposição predatória e precipitada à concorrêncai estrangeira. E ele tem razão. Qualquer empresa de fora (independentemente do tamanho) quando vem para se instalar no País já traz consigo três consideráveis vantagens: custo do dinheiro mais barato, tecnologia e mão-de-obra qualificada.
Por sua vez, as empresas nacionais têm de enfrentar os juros elevadíssimos (de no mínimo 60% ao ano) e ainda obter recursos para investir em inovação tecnológica e em qualificação do pessoal. Trata-se, portanto, de dar a elas idênticas condições de competir em pé de igualdade com as empresas que vêm para cá. Mas isso, é claro, sem apelar para as velhas e ultrapassadas práticas protecionistas. É mais uma questão de calibrar os incentivos às nossas empresas.
Da três principais desvantagens que nossas empresas têm, duas são particularmente preocupantes, pois podem facilmente transformar-se em pontas-de-lança num eventual processo de desnacionalização predatória: o custo do dinheiro para investimento no setor produtivo e a escolha das tecnologias mais compatíveis com as necessidades e porte dos empreendimentos. Já o problema da qualificação profissional parece ter sido bem avaliado pelo governo e, ao que tudo indica, deverá receber tratamento prioritário em termos de investimentos durante o segundo mandato do presidente FHC.
O governo tem instrumentos à sua disposição para atacar simultaneamente duas questões mais delicadas (necessidade de atualização tecnológica e custo do dinheiro acessível) se colocar efetivamente à disposição das empresas nacionais linhas de crédito a juros compatíveis com a média vigente no mercado internacional. Isto, é claro, sem prejuízo do ajuste fiscal. Hoje, empresários esperam mais de um ano, às vezes, para obter um financiamento relativamente simples (do tipo Finame) do BNDES.
Quanto à escolha das tecnologias mais adequadas, a própria concorrência com empresas estrangeiras coordenada com uma política seletiva de formação de joint ventures (como aconteceu com o setor de informática) pode se encarregar disso.
A propósito, acredito, essas também devem ter sidos as razões do governo quando resolveu criar o Ministério da Produção. Entregue, diga-se, a bem da verdade, à pessoa certa. O ministro Celso Lafer é o homem certo no lugar certo. Ninguém entende mais do que ele de isonomia competitiva.
MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB). E-mail: [email protected]


