Wilson Pedrosa/Agência Estado
(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)
DiscursoO presidente FHC conversa com o ministro Paulo Paiva durante reunião sobre geração de emprego, no Planalto: ‘‘Não há solução para o social sem o econômico’’BRASÍLIA - Nas duas cerimônias públicas em que discursou ontem, o presidente Fernando Henrique Cardoso deixou clara sua irritação com o adiamento do leilão de privatização da Vale do Rio Doce. Fernando Henrique criticou as manifestações contrárias dos setores ‘‘ideologicamente ligados a idéia de que bom é fazer barulho’’ e garantiu que o governo continuará avançando no programa de privatizações, ‘‘respeitando os procedimentos legais’’.
Na solenidade de lançamento do edital para a privatização da última malha ferroviária federal que resta transferir ao setor privado (a Malha Nordeste), o presidente cobrou um ‘‘sentimento do Brasil no mundo’’ e comentou que era ‘‘sintomático’’ que a discussão dos avanços da privatização na malha ferroviária acontecesse no dia de ontem. Disse ainda que o País passa por um momento decisivo de mudanças. ‘‘Mudanças para o bem do Brasil, para o bem da sociedade brasileira, e não haverá recuo’’.
‘‘É muito triste ver quando as pessoas deixam de ter a sensibilidade verdadeira para com o social e para com os desafios nacionais e, aferrados, a um olhar do passado, querem impedir que o Brasil avance para o futuro’’, reclamou. ‘‘O povo percebe as coisas, intui quando não tem informação direta e sabe que o caminho é construtivo.’’
Histeria - Na manhã de terça-feira, quando o leilão estava ameaçado pela grande enxurrada de ações judiciais, o presidente optou por dissimular a preocupação. No único contato com os jornalistas, preferiu brincar para não comentar o assunto. ‘‘Vale hoje? Vale o quê? Vale-refeição?’’, limitou-se a responder.
Ontem, na mesma linha, classificou de ‘‘histeria do contra’’ as manifestações realizadas para protestar contra a privatização da empresa. ‘‘Nós somos o País do Carnaval, estamos habituados com barulho, até gostamos, mas sabemos que não é por aí, que temos que ter o nosso esforço é noutra direção’’.
Questão social Durante reunião de balanço do governo sobre criação de empregos, ontem a tarde no Palácio do Planalto, Fernando Henrique chamou de ‘‘ignorante’’ quem insiste em afirmar que o governo não tem sensibilidade para o social. ‘‘O social não é uma discreta ação demagógica, de uma propaganda ou de uma gritaria’’, disse. Segundo FHC, as ações do governo visam a melhorar o atendimento à população e, por isso mesmo, as principais instituições financeiras, como Banco do Brasil, a Caixa Econômica, o BNDES), o Banco do Nordeste e o Banco da Amazônia estão mudando para ‘‘atender o social’’.
FHC ressaltou que as decisões políticas do governo têm como objetivo aumentar o nível de emprego. Para o presidente, pessoas que não têm ‘‘sensibilidade efetiva, nem para o mundo, nem para o social verdadeiro’’, continuam avaliando o social como se fosse uma questão isolada. ‘‘Não há solução para o social sem o econômico’’, disse o presidente.
Após justificar que as mudanças feitas no governo tinham por objetivo atender a área social, o presidente comentou que elas são difíceis de serem colocadas em prática. ‘‘Não se muda de repente toda uma estrutura, nem uma mentalidade, para atender realmente a demanda que está espalhada por a풒. Para o presidente, o que esta ‘‘gente ignorante’’ pensa do social ‘‘é o velho, é aquele atendimento pulverizado, pequenininho, que, é claro, precisa se ver também’’. Segundo Fernando Henrique, o governo está ‘‘universalizando’’ a preocupação com o social.
Ao se referir ao salário mínimo, o presidente afirmou que ele está aumentando graças às novas formas de participação nos lucros. Para o presidente, o salário mínimo, que no passado era uma ‘‘guilhotina’’, vai diminuindo crescentemente de importância, porque cada vez menos trabalhadores recebem o mínimo.

mockup