IPEA prevê recessão no último trimestre
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sexta-feira, 02 de outubro de 1998
Agência Estado 
As medidas tomadas pelo governo para enfrentar a crise externa e a sangria de divisas vai fazer com que o último trimestre deste ano seja de recessão. A atividade econômica deverá cair 0,9% no período de outubro a dezembro, em relação ao trimestre precedente, segundo a Carta de Conjuntura do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) de setembro. A recessão, porém, estará localizada no trimestre, explicou o diretor de Pesquisas do IPEA, Claudio Considera. De acordo com ele, somente se pode dizer que uma economia submergiu na recessão quando ela apresenta dois trimestres consecutivos de queda no Produto Interno Bruto (PIB), ou seja, na atividade econômica.
Conforme enfatizou, o que ocorrerá nos três primeiros meses do ano dependerá da taxa de juros - que somente terão condições de baixar quando os bancos estrangeiros acreditarem que podem voltar a emprestar dinheiro ao Brasil, por entenderem que o governo está usando os recursos para investir e não para gastar. Enquanto o governo estiver gastando, não haverá ambiente para a redução dos juros, reforça. Para Considera, quando ficar claro que o governo brasileiro está fazendo um sério ajuste em suas despesas, os banqueiros de novo emprestarão, sem a necessidade de tentar atrair capitais externos com taxas de juros nas alturas, pois confiarão na capacidade brasileira de quitar seus compromissos.
Em sua Carta de Conjuntura de setembro, o IPEA reconhece que a atividade econômica vai se desacelerar nos próximos meses e por isso teve de fazer uma revisão nas suas projeções para o PIB este ano. Até agosto, estimava-se que a economia fecharia o ano com expansão de 1,9%, mas agora as indicações são de que não deverá conseguir superar 1%.
Esta revisão nas estimativas, que pode ser considerada bastante profunda, decorreu da incorporação, no modelo de projeções do órgão, das estimativas desfavoráveis que também já estão sendo feitas para a indústria e outros segmentos.
Segundo o IPEA, o cenário econômico mudou, por conta de uma política fiscal mais contracionista, combinada a uma nova retração e encarecimento no crédito, determinados pelas medidas tomadas pelo governo para enfrentar a crise externa. O IPEA vinha prevendo, em agosto, um crescimento de 2,4% para o PIB industrial (o valor da produção) como um todo este ano, porém teve de trazer sua estimativa para uma variação de 0,4%, na carta de setembro.
Mesmo nas estimativas do acumulado até o terceiro trimestre houve revisão: em agosto, a indústria em geral deveria crescer 2,1%; em setembro, a expectativa caiu para 0,8%. No caso da produção física, quando projetavam que a indústria cresceria 1% em 98, os técnicos do IPEA operavam com um cenário segundo o qual a indústria se recuperaria a partir de meados do terceiro trimestre. Agora, tal recuperação não deverá ocorrer - pelo menos não na magnitude prevista - e a expectativa é a de um encolhimento de 0,7%.
De acordo com o IPEA, a queda de expectativas quanto ao PIB industrial geral baseia-se principalmente em um resultado muito ruim esperado para a indústria de transformação: queda de 1,7%. Observe-se que, na carta de agosto, a indústria de transformação figurava com uma projeção de acréscimo de 1,2% em sua atividade. No acumulado do ano até o terceiro trimestre, a previsão de agosto apontava um ganho de 0,3% no PIB da indústria de transformação; nas projeções de setembro, trocou de sinal para uma retração de 1,7%.
Na verdade, conforme o IPEA, o desempenho da indústria em geral, em 98, somente não será pior graças ao aumento de quase 10% a ser registrado pela indústria extrativa mineral. No caso da indústria de transformação, entre as categorias de uso o destaque negativo deverá ficar, pelas projeções do órgão, com o segmento de bens duráveis.
Espera-se para ele uma queda de 21,5% no nível de atividade. Já os bens duráveis devem crescer 1,1% e os intermediários, 0,1%.
Considera assinala que a crise atual, em alcance e profundidade, é pior que a de outubro do ano passado (quando explodiram os problemas na Ásia). Mas, como frisam ele e os técnicos do GAC, desta vez quase todos os setores produtivos vinham crescendo em ritmo moderado e, portanto, a queda não deverá ser tão pronunciada quanto a do ano passado.
De qualquer maneira, os técnicos acreditam que o desempenho do comércio será fraco e que o impacto da crise sobre a construção civil também será significativo. Isso deverá ocorrer por causa de paralisações em obras públicas, adiamento na concessão de financiamentos para a casa própria e a reversão de lançamentos de empreendimentos que deveriam se beneficiar do novo modelo de financiamento habitacional. Mesmo assim, deverá fechar o ano com expansão de 3,1%, ante 3,8% de crescimento acumulado até o terceiro trimestre. O GAC considera que a atividade em melhor situação será a de serviços, que sobe de um aumento acumulado de 1,4% até o terceiro trimestre para 1,6% no quarto, portanto, no ano de 98.


