Ipea nega crise e minimiza desemprego
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quarta-feira, 22 de outubro de 1997
Agência Estado Rio de Janeiro 
Nenhum sinal de recessão ou de desaquecimento econômico à vista. O desemprego também não está aumentando. É o que garantiu ontem de manhã o diretor de Pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Claudio Considera, apesar da taxa de 16,3% de desemprego total apurada na Grande São Paulo pela Fundação Seade e Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese).
Até a indústria está retomando o seu lugar de carro-chefe da economia, tanto que este ano deverá crescer 4,5%, enquanto que no ano passado registrou aumento de apenas 1,5%, frisou Considera, ao abrir ontem um seminário sobre desemprego na sede do Ipea, com a participação justamente de técnicos do Seade e do Dieese, entre outros.
O Ipea, na verdade, diante dos últimos dados concretos apurados, refez os seus cálculos sobre o comportamento da economia e passou a projetar para este ano uma expansão de 4% para o Produto Interno Bruto (PIB) e não mais de 3,8%, conforme vinha estimando nos últimos três meses. O PIB é a soma dos bens, mercadorias e serviços produzidos pelo País, ou seja, a riqueza que gera.
A renda per capita dos brasileiros, lembrou, deverá crescer pelo quinto ano consecutivo - a projeção é de uma elevação de 2,7% -, o que não ocorre desde os anos 70. É um absurdo afirmar que a economia está em recessão por causa do desemprego em São Paulo, disse Considera.
De acordo com ele, o crescimento de 4% esperado para a economia este ano equivale a 5,5% na década de 70 - a chamada década do milagre econômico -, uma vez que na época o crescimento populacional era mais acelerado (de 2,5% a 3%, enquanto agora aumenta cerca de 1,3% anualmente). Em síntese, a se julgar pela análise de Considera, o País vai muito bem, e isso vale até para a indústria, que vinha perdendo espaço para o setor de serviços e agora mostra sinais de retomada.
Em setembro, por exemplo, nas projeções do Ipea, a indústria de transformação cresceu 0,6% sobre agosto e 5,1% no confronto com setembro do ano passado. O economista destacou que as estatísticas do Seade/Dieese são feitas em bases profundamente diferentes das recomendadas pela Organização Internacional de Trabalho (OIT), seguidas internacionalmente.
Além disso, lembrou, São Paulo está perdendo indústrias para outras regiões do País. Ele observou também que muitas pessoas que tiveram crescimento de renda estão comprando bens não industriais - o que reduz as encomendas às fábricas ou não deixa elas crescerem tanto. Ao mesmo tempo, a produtividade na indústria está aumentando, o que implica em redução de mão-de-obra. Considera observou que o setor de serviços, em alguns momentos, pode não estar conseguindo absorver esta mão-de-obra com a mesma velocidade que o desemprego na indústria aumenta.
A enorme diferença apontada entre os indicadores de desemprego da Fundação Seade/Dieese e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que fornece os dados oficiais do País, deve-se às diferentes concepções e métodos de apuração dos dois indicadores.
No caso do IBGE, a Pesquisa Mensal de Emprego (PME) aponta somente o desemprego aberto, com uma metodologia de extrema simplicidade, que obedece à recomendação da Organização Internacional do Trabalho (OIT): pergunta aos entrevistados se estão trabalhando e, caso não estejam, se procuraram ocupação nos últimos sete dias. O número de pessoas que procuraram trabalho sem encontrar é dividido pelo número de Pessoas Economicamente Ativas (PEA), daí resultando o porcentual de desemprego no mês.
Já na Seade/Dieese, tudo muda. O desemprego total em setembro foi de 16,3% e a sua Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), é a soma de três outros indicadores: 1 - A taxa de desemprego aberto - mede a quantidade de pessoas sem trabalho nos últimos sete dias e que efetivamente procuraram trabalho nos últimos 30 dias; 2 - A taxa de desemprego oculto pelo trabalho precário - diz quantas pessoas fizeram algum trabalho precário eventual ou não, remunerado ou não, nos últimos 30 dias. Por último, a taxa de desemprego oculto pelo desalento - mostra as pessoas sem trabalho e que necessitam trabalhar, mas que não estão procurando efetivamente uma ocupação.


