É muito comum no dia-a-dia presenciar a cena de uma dona-de-casa num supermercado reclamando do encarecimento de determinados produtos. Também é muito frequente acompanhar a divulgação dos institutos de pesquisa que dizem que a inflação esteve próxima de zero ou muito baixa no mesmo período. A diferença entre essas duas realidades está na composição dos itens que formam um índice de inflação. A análise sempre é feita com base numa média de serviços utilizados e produtos consumidos pela população.
A coordenadora do Projeto Índice de Preços ao Consumidor, elaborado pelo Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), Maria Luiza Veloso, ressalta que a inflação será mais sentida pelos grupos que consumiram justamente os produtos que encareceram. ‘‘Se num determinado mês subisse apenas o preço do transporte público, as famílias com maior poder aquisitivo não sentiriam a inflação, pois não usam o serviço. O contrário ocorreria com as famílias de baixa renda’’, exemplifica Maria Luiza.
O IPC, calculado todos os meses pelo Ipardes, toma como base as famílias curitibanas que têm rendimento que varia de um a 40 salários mínimos. Elas representam 92% da população. O hábito de consumo foi identificado com base numa pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) entre setembro de 1995 e setembro de 96. Esse perfil só será reavaliado em 2005.
Para obter o índice de inflação, os pesquisadores do Ipardes colhem os dados de 340 produtos e serviços em 1,7 mil estabelecimentos comerciais de Curitiba. São verificados os preços de itens como vestuário, transporte, comunicação, alimentação, saúde, cuidados pessoais, artigos de residência, educação e habitação.
De janeiro a dezembro do ano passado, a inflação acumulada foi de 6,23%. Em janeiro deste ano o custo de vida ficou em 0,89%. O índice de fevereiro será divulgado na próxima semana, pois houve atraso na pesquisa durante o mês.
FolhaPor que a população sempre tem a sensação de estar gastando mais dinheiro para comprar a mesma quantidade de produtos, apesar de os índices apontarem inflação pequena ou quase inexistente?
Maria Luiza Veloso São vários aspectos. Mas o mais importante é que cada família tem o seu gasto e seu orçamento. As pessoas que compram mais determinado produto ou serviço que subiu de preço vão sentir mais a inflação.
FolhaMas não teria de haver uma certa concordância entre os índices de inflação e o gasto mensal?
Maria LuizaO índice de preços é uma média das famílias. No caso do Ipardes, o índice é de quem recebe de um a 40 salários mínimos. Isso atinge 92% da população curitibana. Se você tem uma variação pequena no preço da alimentação que tem determinado peso para essas famílias, é aí que vai dar o resultado. Tudo depende do peso que cada item no orçamento.
FolhaO custo de vida pode ter sido alto para determinadas famílias, mas no mesmo mês ser baixo para outras. Tudo dependerá do hábito de consumo?
Maria Luiza Cada família tem sua própria inflação mensal.
FolhaPara que serve o índice de inflação?
Maria Luiza: O índice baliza vários cálculos. Uma empresa que quiser calcular o vale-refeição, poderá tomar como base a inflação. Pesquisas de mercado e taxas de juros também se baseiam na inflação.
Folha A inflação registrada na cidade de São Paulo acaba sendo tomada como base para todo o País. Essa generalização não é prejudicial para os demais Estados?
Maria LuizaO índice Fipe tem grande confiabilidade e por isso é utilizado. Mas ele reflete a cidade de São Paulo. Se a tarifa de ônibus urbano sobe lá, não pesará aqui, por exemplo. O ideal é cada região ter seu próprio índice de preços ao consumidor.
FolhaPor que os índices dão tanta diferença entre os institutos que fazem a pesquisa mensal?
Maria LuizaAs diferenças estão ligadas à abrangência geográfica e população pesquisada com diferentes faixas de renda. A pesquisa de orçamento familiar tem como resultado os produtos e serviços consumidos e o peso de cada produto no bolso. Essa estrutura é diferente de lugar para outro. Os costumes de consumo são diferentes. Aqui (Curitiba) se consome mais feijão preto, logo ele pesa mais no bolso. Em Minas, se consome feijão branco. Ele é que pesará mais.
FolhaA metodologia de toda pesquisa toma como base o perfil da população. Mas esse perfil não está defasado na maioria dos casos?
Maria LuizaO perfil da população foi traçado com base numa pesquisa feita entre 1995 e 96 pelo IBGE, que mostrou os hábitos de consumo. O ideal era ser feito em período menor e não de dez em dez anos. Se entrou um produto novo no mercado em 97, ele só fará parte da pesquisa quando houver o novo perfil.
Folha Há exemplos práticos disso?
Maria LuizaSim. O aluguel de telefones fixos estava em alta em 95 e 96. Hoje está sumindo. Quase não conseguimos mais cotação, porque as pessoas não alugam mais telefones. Elas conseguem com facilidade comprar o serviço de telefonia. Mas a cotação só desaparecerá do índice na próxima Pesquisa de Orçamento Familiar (POF). Isso pode prejudicar o resultado final, mas é raro.
FolhaHá outros casos?
Maria Luiza No índice antigo do Ipardes nós não pesquisávamos massa e molho de tomate, porque a maioria das pessoas usava o tomate natural. Hoje, incluímos esses produtos. Uma outra coisa que é interessante é que começamos a pesquisar o microcomputador. Também temos que atualizar a mudança de locais de compra.
FolhaMudou muito o local onde as pessoas compram?
Maria LuizaMudou bastante, principalmente com o surgimento dos hipermercados. Peixaria, por exemplo, quando fecha uma a gente quase não encontra outra para substituir.
FolhaComo a inflação se comportou ao longo de 2000?
Maria LuizaHouve um único mês que causou surpresa, os demais não oscilaram muito. Em julho, no entanto, a inflação deu um salto, com 2,1%. Em setembro, houve inflação de 0,07%.
FolhaHá meses em que temos mais inflação?
Maria LuizaMeses de fevereiro e março caem os preços do item vestuário e excursões turísticas, que, por incrível que pareça, têm peso. Mas nestes dois meses, há itens como educação que pesam mais. Essa oscilação ocorre em todo o ano. O problema de junho e julho em 99 e 2000 é que houve aumento de tarifas públicas.
FolhaO que mais pesa no orçamento familiar para as famílias curitibanas?
Maria LuizaÉ o grupo Transporte e Comunicação. Pesa mais do que alimentação para as famílias curitibanas que ganham de um a 40 salários mínimos. Mas se a gente restringisse a pesquisa de um a oito salários mínimos, provavelmente a alimentação teria mais peso. Para uma família mais rica, subir o preço do transporte público não afeta em nada no orçamento mensal.
FolhaO que menos pesa no índice de inflação?
Maria LuizaÉ o vestuário.
FolhaDá para fazer uma previsão da inflação que teremos neste ano?
Maria LuizaÉ difícil prever um índice preciso, mas a previsão é de inflação baixa, seguindo a tendência nacional.

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