Investimentos com capital próprio
Na ante-sala, uma secretária datilografa em uma velha máquina elétrica. Na sala do diretor financeiro, Leodir Bonilha, 50 anos, não há computador. ''Tudo que eu preciso é da minha máquina de calcular'', ele diz, e resume a sua filosofia de gestão: ''A gente não paga à vista, a gente paga adiantado''.
Leodir é o responsável pelas finanças do grupo Bonilha, dono da Tork, a maior empresa da autopeças para motocicletas do Brasil, com planos avançados de montar uma moto nacional, e já fabricando um modelo infantil de 50 cilindradas, três marchas e quatro tempos. Ele define a estratégia financeira do grupo: nenhum empréstimo, 100% dos investimentos com capital próprio e aplicação das sobras de caixa em matérias-primas e estoque. E, se ainda assim, houver caixa sobrando? ''A gente compra boi'', ele replica.
A simplicidade operacional de Leodir contrasta com a fábrica dos 18 mil metros quadrados de área coberta da planta da Tork em Siqueira Campos. Lá, galpão após galpão, o que se vê são fileiras de máquinas computadorizadas de última geração, algumas importadas, ao preço de centenas de milhares de reais cada uma, operadas por técnicos e operários sob o olhar vigilante de Flávio Roberto Bonilha, o Beto, 29.
A Tork é uma das empresas que atraem pessoas de fora para Siqueira Campos, e contribuiu para reverter a queda populacional da cidade. Este poder de atração pode incluir tanto o especialista em mecânica industrial Luiz Cesar Honorato de Almeida, 27 anos, com um salário de R$ 3 mil, que veio de Curitiba, quanto o soldador Walter Batista, 35 anos, vindo de Santo Antônio da Platina.
Os irmãos Bonilha iniciaram sua saga empresarial com uma oficina mecânica em Curitiba, no início dos anos 70, quando Beto nem era nascido. Na própria capital paranaense, o negócio evoluiu para uma fábrica de escapamentos. Em 1993, motivados pelas suas raízes em Siqueira Campos e pela política de doações de terrenos e outros benefícios por parte da prefeitura da cidade para atrair investimentos, os Bonilha voltaram de Curitiba. Montaram uma nova fábrica em Siqueira Campos, e o negócio explodiu.
Dos 50 a 60 itens produzidos em Curitiba, eles saltaram para quase 1,9 mil. As vendas já estão em quase 10 milhões de peças por ano. Há seis meses, eles deram partida à fábrica separada de capacetes, que até o final deste ano deve atingir a produção de 50 mil unidades por mês. O próximo passo da Tork é montar uma moto nacional, para competições off-road, na faixa de 200 a 250 cilindradas, e com um motor importado da Ásia. A idéia é entrar no vácuo deixado pelo fim da produção no País da DT-200 R da Yamaha.
Os Bonilha também têm lojas de material de construção, fazendas, e entraram no ramo da construção civil, erigindo o único edifício de Siqueira Campos, mas com a idéia de fazer outros.





