Investimento externo vai a debate no Brasil
O Brasil foi o mais bem-sucedido dos países em desenvolvimento em termos de atração de investimento estrangeiro direto em 99. Na maioria dos lugares, isso seria motivo de comemoração. O Brasil, no entanto, iniciou uma angustiada discussão sobre a desnacionalização, o investimento estrangeiro e a política industrial.
Na economia globalizada sob a qual vivemos todos, será que os países em desenvolvimento deveriam mesmo aceitar todo e qualquer investimento estrangeiro, perguntam alguns brasileiros, ou será que o caminho correto não seria criar multinacionais sediadas no País?
No mês passado, as autoridades de defesa da concorrência aprovaram a união das cervejarias Antarctica e Brahma. Juntas, vão controlar cerca de 65% do mercado brasileiro de cerveja. Os executivos do novo grupo dizem que, deixadas isoladas, as duas empresas ficariam vulneráveis a uma tomada de controle acionário vinda de fora do Brasil.
Nos últimos meses, companhias siderúrgicas, de papel e petroquímicas, bancos e linhas aéreas solicitaram ao governo em alguns casos com sucesso que tomassem medidas para impedir uma introdução ainda maior de empresas estrangeiras em seus mercados, e que financiasse a criação de campeões nacionais capazes de competir no cenário mundial.
O debate brasileiro é particularmente interessante dada a posição do País como um dos mais atraentes do mundo ao investimento estrangeiro direto. Os US$ 30 bilhões em capital dessa categoria que entraram no Brasil no ano passado superaram até mesmo os investimentos na China, e os dois únicos países a atrair mais investimentos foram os EUA e a Alemanha.
Das empresas que constam do ranking Fortune 500, que lista as maiores companhias dos EUA, 405 têm subsidiárias no Brasil. Entre 90 e 97, grupos norte-americanos investiram US$ 27,7 bilhões no Brasil mais do que os US$ 24,2 bilhões destinados ao México e seis vezes mais do que o total de investimentos norte-americanos na China. Eles teriam muito a perder caso a decisão de aprovar a fusão das cervejarias represente o início de uma reação nacionalista a essa onda de investimentos estrangeiros.
A idéia de multinacionais criadas no País vem conquistando apoio em todo o espectro político. Alguns especialistas setoriais alegam que o grosso do investimento estrangeiro direto foi dedicado à construção de fábricas, e não ao investimento em pesquisa e desenvolvimento ou à criação de empregos bem pagos nas áreas de marketing e projeto. Existe o temor de que o investimento estrangeiro direto esteja criando apenas indústrias sujas no Brasil, enquanto as partes de valor adicionado do negócio são mantidas no exterior.
A defesa da criação de multinacionais brasileira é parte de um projeto mais amplo de estímulo às exportações um elemento essencial para as perspectivas de crescimento de longo prazo do Brasil, já que o atual déficit do país em conta corrente continua relativamente alto, a despeito da desvalorização cambial de 99. Mas alguns críticos vêem esse novo debate sobre política industrial como simplesmente uma tentativa disfarçada das empresas brasileiras para arrancar donativos.





