A crise de confiança na política econômica brasileira deflagrada pelo colapso da âncora cambial levou especialistas a reduzir suas estimativas para a entrada de investimento direto estrangeiro no País em 1999. A Sobeet (Sociedade Brasileira para o Estudo das Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica) e o Cofecon (Conselho Federal de Economia) projetam agora um investimento direto (capital que segue para o setor produtivo e não para aplicações financeiras de curto prazo) entre US$ 10 bilhões e US$ 12 bilhões neste ano.
As projeções anteriores à crise cambial eram de US$ 15 bilhões, da Sobeet e do Cofecon, e de US$ 20 bilhões, do Banco Central. Em 1998, o país recebeu um valor recorde de US$ 26,1 bilhões. Além de construir e ampliar fábricas, desenvolver tecnologia, criar empregos e comprar empresas, o investimento direto estrangeiro reforça o caixa em moeda forte do Tesouro, ajudando o País a financiar o déficit em conta corrente do balanço de pagamentos.
Na semana passada, duas empresas estrangeiras anunciaram o adiamento de projetos no Brasil: a coreana LG Electronics (fábrica de telefones celulares no valor de cerca de US$ 200 milhões, em São Paulo) e a mexicana Imsa (fábrica de produtos siderúrgicos, em parceria com a CSN, no valor de US$ 270 milhões, no Paraná).
Pedro da Motta Veiga, presidente da Sobeet, diz que esses adiamentos indicam uma tendência. ‘‘Acredito que o investimento direto em 1999 será de US$ 10 bilhões a US$ 12 bilhões, mas, se chegar a US$ 13 bilhões, será muito bom.’’ Antônio Corrêa de Lacerda, presidente do Cofecon, diz que o investimento direto, na melhor das hipóteses, vai cair pela metade neste ano, para um valor ainda ‘‘considerável’’, entre US$ 12 bilhões e US$ 13 bilhões. ‘‘Numa situação normal, o Brasil receberia entre US$ 15 bilhões e US$ 20 bilhões. O ano passado foi atípico devido às privatizações, principalmente da Telebrás. O investimento direto estrangeiro nas privatizações alcançou US$ 6,1 bilhões em 98.’’
James Wygrand, diretor da Control Risks, empresa de avaliação de riscos de investimento, diz que a crise cambial afeta o ritmo do investimento direto, mas não a decisão de investir. Os setores de bens duráveis e de produtos de consumo vão adiar investimentos, mas haverá um ‘‘bolsão’’ de investimentos na área de infra-estrutura, principalmente nos setores de telecomunicações e de energia elétrica. Wygrand diz que os investidores estão preocupados com a volta de modelos econômicos heterodoxos, tais como a indexação.
Porta-vozes das empresas transnacionais dos EUA, França e Alemanha acreditam que a redução da entrada de investimentos diretos no país em 99 é um fenômeno passageiro. O fluxo retomará o ímpeto dos últimos quatro anos quando o governo recolocar a política econômica nos trilhos, com a conclusão do ajuste fiscal e das reformas.
John Mein, presidente da Câmara Americana de Comércio, de São Paulo, diz que a incerteza econômica vai mudar a estratégia dos investimentos norte-americanos. As empresas com capacidade de produção de excedentes para exportação devem aproveitar a desvalorização cambial. Mas as empresas voltadas para o mercado interno vão adiar investimentos por causa da retração da demanda e da recessão.

mockup