São Paulo - O fluxo de dinheiro para os mercados futuros de commodities registrou crescimento recorde no primeiro semestre do ano, anunciando uma aposta dos investidores na recuperação da economia e em futuras pressões inflacionárias. Segundo levantamento preliminar do banco de investimento Barclays Capital, fundos aplicaram mais de US$ 36 bilhões em contratos de metais, combustíveis e produtos agrícolas nos seis primeiros meses do ano, o que significa um crescimento de 86% em relação ao mesmo período do ano passado.
Os investidores enxugaram suas carteiras de commodities depois do estouro da crise financeira, há quase um ano. Os preços de vários produtos desabaram mais de 50% até março, quando começaram a reagir. Desde então, os fundos não apenas aumentaram suas aplicações como reverteram sua posição nas bolsas. Ou seja, liquidaram contratos de venda e abriram posições de compra. Na prática, deixaram de apostar na queda para apostar na alta dos preços.
Apenas no mercado futuro da soja, os fundos abriram quase 100 mil contratos de compra entre março e junho deste ano, segundo dados da Comissão de Comércio de Commodities e Futuros dos Estados Unidos. O número corresponde à aquisição de 13,6 milhões de toneladas - ou dois terços da soja colhida este ano no Mato Grosso. Em maio, o saldo total de compra dos fundos nas bolsas americanas de commodities superou 800 mil contratos, maior nível desde julho de 2008.
O comportamento dos preços no segundo trimestre mostra que os especuladores foram recompensados. O índice de commodities CRB, que havia caído nos três trimestres anteriores, subiu 13,4% e já acumula alta de 8,9% em 2009. Outro índice de commodities, o S&P GSCI, registrou em maio sua maior alta mensal desde setembro de 1990 (20%). Produto com maior peso nas cestas de commodities, o petróleo disparou mais de 30% entre abril e junho; o açúcar, 26,7%; e o cobre, 22,5%.
A reação dos mercados de commodities surpreendeu muitos analistas e levanta dúvidas sobre sua sustentabilidade, já que o mundo continua mergulhado numa das piores recessões da história e sem sinais claros de recuperação. O que mais chama a atenção é o fato de que as matérias-primas que mais se valorizaram nos últimos meses estão entre as mais atreladas ao desempenho da economia.
Inicialmente, analistas acreditavam que produtos agrícolas e metais preciosos seriam as primeiras commodities a se recuperar, levando-se em conta que a demanda por alimentos é menos sensível a variações de renda e o ouro é um ativo muito procurado em tempos de incerteza e aversão a risco. Os analistas estavam errados. De acordo com o índice Dow Jones-UBS, os contratos de metais básicos e energia, que deveriam demorar mais para se recuperar, foram os que deram mais retorno no primeiro trimestre - a carteira de metais teve valorização média de 22,4%, enquanto a de energia ganhou 17,4%. Commodities agrícolas e metais preciosos avançaram apenas 5,6% e 1,3%, respectivamente.

mockup