Interior amplia presença no Mercosul
Lideranças querem romper centralismo nas relações entre os países do bloco latino-americano e intensificar as parcerias
Paulo Pegoraro

Luiz Carlos Cadini
Sem privilégiosSalazar Barreiros: ‘‘O Fórum de Prefeitos, criado há cinco anos, busca agora a consolidação para defender os interesses dos municípios fora do eixo das capitais’’Após prolongado período apenas contestando efeitos danosos do Mercado Comum do Sul (Mercosul), empresários, políticos e outras lideranças de cidades do interior dos países que integram o bloco latino-americano reivindicam a abertura de espaços nos negócios, cultura, educação e outros campos em que seja possível a integração. Estas lideranças procuram romper o centralismo das trocas comerciais no eixo São Paulo-Buenos Aires, que beneficiam o parque industrial paulista e em troca permite a entrada no Brasil de produtos agropecuários da Argentina, em condições mais favoráveis que as oferecidas aos produtos nacionais.
A ‘‘cunha’’ no centralismo vem sendo posta já há algum tempo pelo Fórum Regional Permanente de Prefeitos do Mercosul, criado há cinco anos e que agora busca a consolidação definitiva. Um encontro em junho, na Província de Corrientes, na Argentina, vai alterar a denominação para Fórum Regional de Municípios do Mercosul, e será registrado oficialmente em cada país integrado. A participação não será limitada a prefeitos. O presidente do Fórum é Juán Carlos Hobecker, ‘‘intendiente’’ de Eldorado (Província de Misiones), e o vice-presidente é o prefeito de Cascavel, Salazar Barreiros (PPB).
Salazar é o único chefe de Executivo paranaense no comitê central do Fórum. Ele decidiu aceitar a indicação para dar mais ênfase à sua proposta de colocar a cidade como um dos pontos de referência do Mercosul ‘‘do interior’’, com a perspectiva de atrair investimentos de empresários da Argentina, Paraguai e Uruguai (os parceiros do Brasil), principalmente no setor agroindustrial, e de estimular exportações de empresas de Cascavel (e região), o que já é feito por cerca de quinze empresas, em escala variada.
Entre as exportações (principalmente para Argentina e Paraguai) estão equipamentos industriais e agrícolas, reprodutores animais, pintinhos, fertilizantes, móveis e estofados. No sentido inverso, empresas da região importam trigo, milho, frutas, erva-mate, lácteos e carne. Lideranças dos produtores rurais, como Sebaldo Waclawovsky, diretor da central de cooperativas Cotriguaçu, de Cascavel, sustentam que eles ‘‘pagam a conta’’ das facilidades para a entrada da produção argentina, mais baratos, ‘‘em troca das exportações da indústria paulista’’.
Salazar Barreiros endossa a queixa em relação à competição argentina na agropecuária. Ele observa que a produção brasileira tem custo mais elevado, por causa dos juros, tributos, insumos mais caros e solos que exigem investimento maior. Segundo o vice-presidente do Fórum, para que a integração fosse harmônica ‘‘teria que haver equilíbrio entre os integrados, e isso não sendo possível’’. Deveriam, ele propõe, ser criados mecanismos ‘‘para tornar iguais os desiguais’’.
O Fórum também trata de estimular a aproximação entre empresários de cidades interioranas, em encontros que têm sido organizados, para que descubram possibilidades de negócios, inclusive com integração de capitais. Salazar Barreiros lembra que há alguns anos havia grande distanciamento entre eles, ‘‘e sabe-se que negócios implicam em confiança mútua’’, por isso a realização dos encontros, em várias cidades próximas às fronteiras - Cascavel tem recebido várias comitivas de empresários.
Nos setores cultural e educacional houve avanços em decorrência do Fórum, afirma Salazar. Um dos exemplos é Cascavel, que mantém várias parcerias com cidades argentinas e paraguaias para intercâmbio de artes plásticas, teatro, música e outras formas de expressão artística. Também há intercâmbio para qualificação de professores entre Cascavel e Posadas (capital da Província de Misiones), inclusive para que ministrem aulas de Espanhol na cidade brasileira e de Português em Posadas.
O Fórum tem várias câmaras setoriais, que discutem questões do interesse comum nos mais diversos campos, como turismo, meio ambiente, transportes e serviços de saúde. Os participantes decidem diretamente em questões nas quais têm esta prerrogativa, e em outras, ‘‘amarradas’’ pelo tratado do Mercosul, encaminham reivindicações aos negociadores que representam os governos dos países integrados - por exemplo, em relação à burocracia alfandegária, que afeta principalmente empresários interioranos, que têm menos força de pressão.
Questões declaradamente de cunho político também merecem atenção do Fórum, quando influem sobre as relações sociais ou institucionais entre as comunidades parceiras. É o caso da eleição presidencial no Paraguai - neste domingo -, ‘‘em clima de grande instabilidade e riscos à democracia’’, diz. No último encontro do Fórum, em Posadas, ele fez pronunciamento alertando que a democracia no país vizinho deve ser preservada ‘‘sob qualquer hipótese, pois ela é fator de unidade do contingente e pilar da integração no Mercosul’’.
O presidente da Cooperativa Agropecuária Três Fronteiras, de Medianeira, Irineo da Costa Rodrigues, observa que ‘‘o ideal’’, para as relações no Mercosul é os países ‘‘se completarem em suas necessidades’’, oferecendo aos parceiros aquilo que podem produzir com mais qualidade e a custo menor. Porém, como há desigualdades nas condições de produção, inclusive de custo, Irineo ressalta que o mercado torna-se competitivo ‘‘e isso requer profissionalização dos que nele querem buscar espaços’’. Segundo o presidente da Cotrefal, ‘‘os mais eficientes conseguem se impor e efetuar negócios’’.

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