Segundo fontes do Palácio do Planalto, o governo segurou os preços porque quer evitar o início de uma greve dos caminhoneiros
Segundo fontes do Palácio do Planalto, o governo segurou os preços porque quer evitar o início de uma greve dos caminhoneiros | Foto: Gustavo Carneiro


Abre um precedente perigoso. Falta de credibilidade. Insegurança sobre a política preços. Esse são alguns dos impactos diante do recuo Petrobras do reajuste do preço do diesel, segundo especialistas e representantes do mercado ouvidos pela FOLHA. A decisão, anunciada nesta sexta-feira (12) derrubou as ações da estatal, que perderam R$ 32,3 bilhões em valor de mercado.


Na quinta-feira (11), a empresa reajustou os combustíveis em 5,7%. A maior alta desde que os presidentes da República Jair Bolsonaro, e da Petrobras, Roberto Castello Branco, assumiram seus cargos. Mas na sexta, Bolsonaro suspendeu o reajuste.


A estatal havia informado que os reajustes do óleo diesel ocorreriam no período mínimo de 15 dias. A política do governo anterior, de Michel Temer, era de flutuação dos preços conforme a cotação do petróleo.


Segundo fontes do Palácio do Planalto, o governo segurou os preços porque quer evitar o início de uma greve dos caminhoneiros como a que ocorreu no ano passado, quando a paralisação durou 11 dias. O estopim, na época, foi justamente as altas do preço do diesel.


"Isso prova que mais uma vez o presidente está do nosso lado, ao lado da categoria. É um comprometimento que ele teve com a categoria e que a gente teve apoiando a sua candidatura”, afirmou Wallace Landim, o Chorão, um dos principais líderes dos caminhoneiros.


O presidente do Sindicato dos Transportadores Rodoviários de Londrina e Região, Carlos Roberto Delarosa, afirmou que a categoria ficou indignada com reajuste e viu o passo atrás da Petrobras como positivo. “A categoria está quase parada. Os fretes não estão acompanhando as altas, a tabela não foi cumprida, a lei está sendo desrespeitada. Para a categoria, dessa decisão foi positiva”, disse Delarosa.


Segundo ele, os caminhoneiros estão recebendo entre 10% a 15% abaixo da tabela. “Em frete curto, pagam até 20% abaixo da tabela”, reclamou o sindicalista. Delarosa não descartou a possibilidade de uma paralisação em maio, caso o governo não adote medidas para que se cumpra a tabela de frete.


O movimento de voltar atrás da Petrobras mostra “a força política dos caminhoneiros”, segundo o economista José Guilherme Silva Vieira, do Departamento de Economia e do Programa de Desenvolvimento Econômico da UFPR (Universidade Federal do Paraná). Ele frisou o fato de que os caminhoneiros estão sofrendo pressão nos fretes e não conseguem ter margem de lucro. “Qualquer aumento torna impraticável o transporte”, justificou.


Vieira lembrou que Bolsonaro vem adotado outras medidas para aliviar essa pressão como a revogação dos contratos dos radares rodoviários, o aumento dos pontos para suspensão da carteira de motorista que passaria de 20 para 40 pontos. “São amostras que os caminhoneiros têm força política”, analisou o professor.


O cientista político Maurício Fronzaglia, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, afirmou que Bolsonaro abriu um precedente perigoso ao ceder a pressão dos caminhoneiros.
O Setcepar (Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas no Paraná) está preocupado que a Petrobras repasse o percentual de reajuste mais para frente. “Nunca se sabe para que lado vai. A política (de reajuste) não é clara. Isso cria um ambiente de insegurança”, comentou Marcos Egídio Battistella, presidente do Setcepar.


De acordo com Battistella, as empresas estão com dificuldade de negociar os contratos em função desta falta de clareza. “Fica complicado conseguir repassar. O cliente não aceita”, disse.


O Sindicombustíveis-PR (Sindicato dos Revendedores de Combustíveis e Lojas de Conveniências do Estado do Paraná), disse, por meio de nota, que “vemos com bons olhos este recuo de Petrobras. É preciso maior ponderação e sensibilidade da estatal para entender a situação do país, com medidas para suavizar o impacto dos reajustes na vida de toda a população.”


A nota segue dizendo que “melhor ainda seria termos redução de preços, com um corte nos impostos. Atualmente, quase metade do que o consumidor paga na gasolina é imposto. No diesel, mais de 26% é imposto.”


INTERVENÇÃO


O economista da UFPR explicou que, primeiramente, o recuo no reajuste traz impacto na credibilidade da mudança de governança da estatal e de outras empresas do governo. “A medida que o governo pode se sentir sensível à pauta externa (caminhoneiros), o que impede que ele faça a mesma coisa em outras estatais? Isso tem impacto na perda de credibilidade”, argumentou Vieira.


Ele também chama atenção para a reação do mercado financeiro. “O mercado reagiu mal”, afirmou. Segundo o professor, o mercado está percebendo que o discurso liberal da campanha não se sustenta. “Isso se reflete em bolsa em baixa e dólar em alta”, completou.


A medida, na avaliação do economista, é uma forma de subsídio que o governo está adotando, prática de governos passados. “No passado, era comum o preço diesel ficar abaixo do valor de mercado. Ao impedir o preço de subir é uma espécie de subsídio”, disse.


O economista Agostinho Celso Pascalicchio, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, afirmou que o poder executivo tem o direito de dar a palavra final no preço dos combustíveis e criticou a falta de preparação da governança e da relação com os investidores para o anúncio da variação de preço.


Em sua avaliação, segurar o preço do diesel alivia a pressão inflacionária, uma vez que o reajuste poderia impactar o poder de compra do consumidor.


Segundo o cientista político Maurício Fronzaglia, se o presidente da República for coerente com a sua história política, ele deve continuar com o padrão de intervenção nas estatais.


Ações da Petrobras perdem R$ 32,3 bilhões em valor de mercado

A Petrobras perdeu R$ 32,3 bilhões em valor de mercado. As ações da estatal fecharam a sexta-feira (12) em queda. Petrobras ON e PN registraram perdas de 8,54% e 7,75%, respectivamente. "Os sinais de ingerência política na Petrobras foram um balde de água fria para o investidor que está atento ao plano de desinvestimento da empresa. O evento tem efeito direto sobre a credibilidade da empresa e cria dúvidas quanto à atratividade das subsidiárias que a companhia pretende vender. Esse pode ter sido um evento pontual, mas trouxe à tona temores do passado", disse Luiz Roberto Monteiro, operador da mesa institucional da Renascença Corretora.


As ações da BR Distribuidora caíram 4,10%. O "efeito Petrobras" acertou em cheio as ações de outras empresas estatais, também pelo temor de perda de atratividade nas privatizações. Banco do Brasil ON fechou em queda de 3,17% e Eletrobras ON e PNB perderam 5,24% e 4,97%, respectivamente. Nos piores momentos do dia, o Ibovespa chegou a cair 2,36%, aos 92 516,32 pontos.


Para o economista Agostinho Celso Pascalicchio, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a bolsa atuou em efeito de manada nesta sexta-feira e, acredita, que o “efeito Petrobras” também sofreu influênciaênca dos gate keeppers (produtores e informação de valor) causando um efeito especulativa. “São um conjunto (recuo do reajuste) de fatores que mexem com o ambiente financeiro e econômico e representa dificuldades para uns e oportunidade para outros”, afirmou o professor.


A CVM (Comissão de Valores Mobiliários) cobra explicações da Petrobras sobre o recuo no reajuste de 5,7% do preço do diesel anunciado na quinta-feira (11).


A autarquia responsável pela fiscalização do mercado financeiro pediu uma posição da estatal para entender se haveria a necessidade de divulgação de fato relevante. O recuo não foi comunicado ao mercado.


O aumento foi publicado no site da estatal no início da tarde - desde que implantou a atual política de preços, em 2017, a empresa não faz mais divulgação de reajustes por comunicados ao mercado ou à imprensa. À noite, a página foi alterada, com a substituição do novo preço pelo valor praticado desde o dia 22 de março.


MERCADO DO DIA


O episódio da Petrobras acabou por agravar o clima na bolsa que já era de indisposição do investidor. O Índice Bovespa teve a quarta queda consecutiva. O recuo da estatal trouxe um forte clima de desconfiança no mercado e os papéis terminaram o dia com perdas expressivas. Com volume financeiro superior à média dos últimos dias (R$ 20,2 bilhões), o Ibovespa terminou o pregão aos 92.875,00 pontos, em queda de 1,98%. No acumulado da semana, a perda foi de 4,36%.


A semana já vinha sendo marcada por elevada cautela no mercado, por conta de ruídos no cenário político em torno da reforma da Previdência. O mercado de câmbio também se estressou e o dólar chegou a bater em R$ 3,90. No final do dia, o dólar fechou com valorização de 0,83%, a R$ 3,8884. Na semana, a moeda americana acumulou alta de 0,43%. Com a valorização desta sexta, o dólar apagou a queda no ano e passou a registrar alta de 0,33%. (Com Agência Estado e Folhapress)

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