Depois de uma valorização de 93,4% em pouco mais de seis meses, todo o mercado esperava que a Bolsa caísse. A intensidade da queda, entretanto, surpreendeu. ‘‘É violento demais’’, admite Heitor Hortêncio Jr., diretor da corretora Síntese. Ele diz que a baixa começou na semana passada como uma ‘‘realização de lucro’’ normal, ou seja, quando investidores vendem para lucrar com a alta anterior.
Em seguida, porém, veio o ‘‘medo da Ásia’’ - crise cambial na Tailândia e outros países da região - e o boato sobre desvalorização do peso argentino. ‘‘Como o mercado inteiro estava comprado, sem notícia boa, e os estrangeiros estão retraídos, virou efeito-dominó’’, explica Hortêncio, para quem a queda pode continuar por algum tempo.
Dalton Gardimam, economista-chefe do Deutsche Morgan Greenfell no Brasil, analisa a baixa como contrapartida à alta muito forte do primeiro semestre. ‘‘A crise na Ásia é desculpa’’, diz ele, argumentando com o mercado de câmbio, que está mais calmo. Depois da aprovação da emenda da reeleição, e com exceção da privatização da Vale, não houve motivos técnicos para alta tão forte, acrescenta o economista. Gardimam entende, porém, que os fundamentos de longo prazo continuam positivos para a Bolsa, devido às privatizações.
Para Randolph Haynes, diretor da corretora Coinvalores, a crise na Ásia ‘‘detonou uma realização de lucros que era esperada’’. Ele recomenda ‘‘cabeça fria ao investidor, pois a atuação em Bolsa nunca deve ser emocional e o mercado tem condições de se acalmar daqui a alguns dias’’.
Haynes se preocupa com o comportamento de pessoas físicas que entraram em fundos de ações, sem uma boa orientação. ‘‘Se o fundo foi ‘bem vendido’, com a perspectiva de longo prazo, o cotista não tende a resgatar nessas horas’’, afirma.
Marcelo Giufrida, vice-presidente do Banco CCF Brasil, concorda que a realização de lucro, embora esperada, é bem forte. Mas, numa perspectiva histórica, a queda chega a ser uma correção normal, concentrada num prazo curto, opina Giufrida. Em 12 meses, a alta, que superava 100%, é de 80%, compara.
Giufrida reconhece que a Bolsa pode continuar caindo hoje, mas o ajuste estaria perto do fim. Ontem, relatou, já houve investidor estrangeiro comprando. ‘‘Não vejo o fim do mundo, a Bolsa não acabou.’’
O consultor Paulo Possas também não recomenda que o investidor saia agora da Bolsa. ‘‘Se resgatou na semana passada, tudo bem. Hoje, não vale mais, mesmo porque os bancos pedem até três dias para o resgate nos fundos’’, diz ele. Possas critica duramente fundos carteira livre de grandes bancos que estavam 100% posicionados em ações, ‘‘e ações especulativas’’, o que agravou a queda das cotas. ‘‘Isso é criminoso’’, desabafa ele.

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