Instituto alemão busca parcerias com pesquisadores brasileiros
Escritório brasileiro do Instituto Fraunhofer conecta universidades e centros de pesquisa com o setor industrial europeu
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de julho de 2025
Escritório brasileiro do Instituto Fraunhofer conecta universidades e centros de pesquisa com o setor industrial europeu

Há mais de duas décadas, o Departamento de Ciência e Tecnologia de Alimentos da UEL (Universidade Estadual de Londrina) desenvolve pesquisas com a palmeira juçara. A planta, originária da Mata Atlântica, ficou conhecida pela extração do palmito, mas os pesquisadores têm avançado nos estudos do fruto da juçara. Do coquinho, além da extração de uma polpa muito semelhante ao açaí, as pesquisas apontam que é possível obter uma variedade de produtos de grande valor comercial sem comprometer o futuro da espécie. A palmeira juçara está ameaçada de extinção e, desde 2008, o corte do palmito é proibido no país.
Para transformar os testes de laboratório em produtos comerciáveis, os pesquisadores da UEL poderão contar com a parceria do Instituto Fraunhofer, da Alemanha.
Enquanto no laboratório os pesquisadores trabalham no desenvolvimento de novos produtos derivados do fruto da juçara, os técnicos do instituto alemão poderão colaborar na avaliação e escolha dos melhores fenótipos da palmeira, de forma a contribuir com a questão ambiental ao mesmo tempo em que garantem maior rentabilidade para as populações que terão como fonte de renda a prática do extrativismo do fruto da juçara.
“Ainda não há um projeto específico, estamos montando grupos, cada um com seu conhecimento, para seguir essa ideia”, disse a professora do Departamento de Ciência e Tecnologia de Alimentos da UEL, Karla Bigetti Guergoletto. ”Tudo precisa de recursos financeiros e de tempo e é aqui que a gente está desenvolvendo o projeto.”
Conectar universidades e centros de pesquisa com o setor industrial e impulsionar o desenvolvimento econômico é um dos eixos do trabalho desenvolvido pelo Instituto Fraunhofer, que mantém no Brasil um escritório do Fraunhofer Liaison, atuante na área de pesquisa aplicada. A rede alemã congrega 76 institutos nos quais atuam 32 mil funcionários, constituindo a maior rede de institutos da Europa.
A sede brasileira do escritório está localizada em São Paulo e desde setembro de 2024 tem como head o engenheiro mecânico Manuel Steidle. Manuel é irmão do mestre em geografia e ambientalista Daniel Steidle, proprietário da Fazenda Bimini, em Rolândia, onde fica um grande banco de germoplasma da palmeira juçara. Daniel, que há muitos anos acompanha as pesquisas feitas na UEL, foi quem fez a ponte entre o irmão e Guergoletto.
Segundo Manuel, a ideia é aproveitar aqui um modelo bem sucedido já desenvolvido em parceria com o Ital (Instituto de Tecnologia de Alimentos), de São Paulo, com o fruto de outra espécie de palmeira, a macaúba. “Lá, foi feito um trabalho que levou mais de dez anos. O Instituto Fraunhofer ajudou a desenvolver um processo de extração de proteína da macaúba. Foi preciso um maquinário que tinha na Alemanha”, contou o head.
Manuel prospecta parcerias e faz o contato inicial para que, na sequência, entrem em cena os especialistas do instituto. Assim como foi feito na UEL, o head também trabalha para estreitar contatos com outros centros de pesquisa, como a Embrapa e a Embrapii (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial). “Meu trabalho é fazer conexões entre os institutos alemães e os brasileiros.”
Na região de Londrina, Manuel vê muitas possibilidades de parcerias no setor do agronegócio e da saúde, por exemplo. “A famosa inovação que o pessoal tanto fala, que é pegar algo científico e fazer isso ser útil no nosso dia a dia. Todo mundo busca o mesmo caminho, de como sair de dentro da sala de aula e chegar a ter um produto, um serviço, um remédio, alguma coisa que gere valor para a sociedade.”
“O que ajuda muito a cooperação internacional são as questões certificatórias. Não que no Brasil não tenha, mas talvez a gente tenha mais infraestrutura na Europa para fazer as validações e toda a parte de certificação”, pontuou Manuel.
Quando a intenção é vender produtos ao mercado externo, a certificação tem um peso ainda maior. “Algo muito importante que está sendo bastante visto na Alemanha é a certificação de origem. Você provar que a produção ou extração foi feita de forma sócio-ambiental correta, que você não explorou nem pessoas nem a natureza.”
No caso das pesquisas da UEL com a palmeira juçara, houve um processo de patente que destinava os royalties para as comunidades indígenas. “Esses apelos é que os europeus valorizam muito. Por se tratar de uma espécie-chave da floresta, fazer parte da cultura indígena e aí também ter uma forma não só de incrementar as agrofloresta, mas também os povos originários terem o retorno sobre essa planta. Essa é uma outra preocupação, o papel social que ela representa”, ressaltou Daniel.
“Os nossos governos pedem isso para a gente como academia, que nós tenhamos essas parcerias internacionais porque é uma forma de a gente capacitar nossa população para melhorar a nossa região”, afirmou Guergoletto.
Manuel destacou ainda o que chama de "efeitos adicionais” da cooperação, que é o intercâmbio de pessoas, de experiências e de conhecimento. “Trazemos pesquisadores ou levamos para lá, então esses são os ganhos de desenvolvimento do capital humano que vão muito além de resolver um problema específico. Você cria uma pequena comunidade que depois anda sozinha”, salientou Manuel.
Mas o instituto alemão também está atento para o que o Brasil tem a oferecer. Um exemplo são as pesquisas de arboviroses. “É bilateral. Não podemos ter complexo de vira-lata. Às vezes, tem coisas que são melhores aqui no Brasil. Estou discutindo com o pessoal da Fiocruz toda a problemática das arboviroses. Dengue, zika, chikungunya. Já estão chegando casos de dengue na Europa. Com a Fiocruz, por exemplo, a gente tem muito a ensinar para o pessoal de saúde pública europeia”, disse Manuel.


Simoni Saris
Repórter com atuação nas áreas de Economia, Infraestrutura e Agronegócio.


