Instabilidade das bolsas pode valorizar soja, prevê Mologni
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quinta-feira, 13 de agosto de 1998
Da Redação 
A retomada da crise asiática, a queda do iene japonês e a iminente desvalorização do yuan chinês, além de outros sinais de descompasso nas bolsas, não afetam o mercado de commodities agrícolas como soja e café. Pelo contrário, podem até valorizá-las, na medida em que os grandes fundos de commodities (fundos de pensão) tendem a migrar para as commodities agrícolas, aos primeiros sinais de convulsão no mercado acionário. Este fenômeno já aconteceu ano passado quando os grandes fundos se abrigaram nas commodities agrícolas só que por outro motivo: fugir das baixas taxas de juros. Por conta desses investimentos especulativos, as cotações da soja deram saltos espetaculares na Bolsa de Chicago, repercutindo no preço internacional do produto, ano passado. Observe-se que não houve problema climático que afetasse a oferta do produto.
A análise é do professor Ismael Mologni, de Londrina, ao ser entrevistado terça-feira por este jornal sobre os efeitos de uma eventual nova crise das bolsas afetando os produtos de exportação do Brasil. Mologni não quis com isso minimizar o risco para a economia brasileira, decorrente da turbulência asiática. Para o professor e analista econômico, o Brasil continua sendo a bola da vez, em matéria de vulnerabilidade monetária.
Prós e contras Depois de analisar variáveis contrárias e favoráveis ao mercado de commodities, Mologni observou que, especificamente no caso das bolsas, a presença dos fundos é decisiva para elevar ou derrubar preços. Os rumos do mercado, porém, não estão a mercê apenas dos fenômenos (papéis) especulativos. Ele aponta, também, os fenômenos mercadológicos, como redução de área nos Estados Unidos e América Latina (Brasil e Argentina) na próxima safra.
Quando surgirem os primeiros prognósticos sobre redução de área, em outubro/novembro, é quase certo que o mercado apresente reação. Isto sugere que aquele período será uma boa oportunidade para vender. Por enquanto, o mercado ainda se comporta em função bom desempenho da presente supersafra norte-americana.
Gargalo é o câmbio O grande fator adverso ao mercado da soja, porém, continuam sendo a valorização cambial e os juros. Com relação aos juros, embora absurdos, nada se pode fazer, pois trata-se de estratégia para manter os investidores externos. O Brasil, com enorme dívida pública e déficit externo nas transações correntes, acima de US$ 33 bilhões, não pode prescindir da entrada desses recursos. Já com relação ao câmbio, mais cedo ou mais tarde o governo terá de cair da real e fazer alguns ajustes.
Nas contas do professor, em 4 anos o câmbio acumula uma valorização de 34%. Significa que a soja e o café brasileiros estão desvalorizados artificialmente em 34%. É a inflação (INPC) acumulada no Real de 71,78%, menos a inflação norte-americana, do mesmo período, de 11% e a desvalorização cambial de 15%, já ocorrida até o momento.
Não fosse a redução do ICMS sobre exportações (lei Candir, em 1996), estaríamos vendendo a soja não a R$ 13, mas a R$ 11,30/saca. Isto foi positivo - reconhece Mologni -uma vez que o produtor norte-americano nunca pagou ICMS para exportar. Lamentou que a vantagem do ICMS foi neutralizada pela desvalorização cambial uma vez que, hoje, a soja poderia estar sendo vendida a R$ 16,75 ou mais. É só pegar a cotação de atual (R$ 12,50) e acrescentar 34%.
No caso do câmbio, Mologni acha que o governo tem que manter equânimes as relações de troca dos exportadores. A valorização cambial além de prejudicar o preço internacional da soja, está fazendo com que os juros fiquem altos aumentando ainda mais a emissão de títulos públicos como acaba de ser solicitado ao Congresso pelo governo.


