Ariel Palacios
Agência Estado
A decisão do governo brasileiro de aplicar medidas fitossanitárias para a entrada de produtos lácteos pegou de surpresa o Centro da Indústria do Leite (CIL) da Argentina. Referindo-se à última crise comercial surgida entre os dois países - tendo o papel brasileiro como vítima de medidas protecionistas argentinas - o presidente do CIL, Jorge Secco, lamentou que ‘‘os problemas de determinados produtos se resolvem impedindo a entrada de outros’’. Secco considera que a medida foi uma retaliação: ‘‘ficamos com a impressão que o Brasil quer bloquear de vez as importações provenientes da Argentina’’.
O líder dos produtores de leite sustenta que o produto argentino sai do país com todas as certificações dos órgãos competentes. Secco diz que não entende ‘‘o que é que o Brasil quer agora. Nossas exigências de qualidade são maiores que as deles’’. Os produtores locais consideram que seus colegas brasileiros são menos competitivos e que por isso tentam reduzir a entrada de lácteos argentinos. ‘‘Quem perde é o consumidor brasileiro, que terá que pagar muito mais pelo lácteo desse país’’, afirma Secco.
Os produtores argentinos de leite começam a chorar sobre o leite que corre o risco de não ser exportado: além das medidas fitossanitárias, enfrentam denúncias de dumping, que envolveria a triangulação de lácteos provindos de outros países a preços mais baixos. Na semana passada, segundo o CIL, o governo brasileiro deixou de comprar leite em pó argentino.
Segundo Secco, o Brasil produz 21,5 bilhões de litros por ano. Secco sustenta que no total, existiriam 1,2 milhão de produtores no país, o que faria que a produção brasileira não superasse os 50 litros diários. Secco afirma que existe superioridade argentina na produção: ‘‘produzimos 10 bilhões de litros entre 19 mil produtores. Isso significa que são 1.450 por dia. E poderia ser mais, já que 30% destes produtores só produzem 70% do total da capacidade que possuem’’. O diretor do CIL sustenta que enquanto a vaca brasileira produz 3 litros diários, cada vaca argentina fornece 11,5 litros.
O setor lácteo não é dependente das exportações, já que o mercado argentino consome 82% da produção nacional. Ou seja, 18% é exportado (calcula-se que até o fim deste ano chegará a 20%). Do total exportado, 75% vai ao Brasil.
O total vendido ao Brasil nos primeiros sete meses deste ano foi de US$ 166 ,milhões. Desse total, US$ 140 milhões foram de vendas de leite em pó. Em 1998, as exportações totais de lácteos ao Brasil foram de US$ 134 milhões. Delas, US$ 105 milhões foram em leite em pó. Apesar do crescimento, os argentinos lamentam que o volume exportado não tenha sido acompanhado por um crescimento nos preços internacionais.
Segundo estudos do Centro de Economia Internacional (CEI), vinculado à Chancelaria argentina, após a crise brasileira do início do ano, calculava-se que embora a desvalorização do real fosse tornar mais caros os lácteos argentinos, por outro lado aumentariam os custos de produção dos produtores brasileiros, principalmente pelo maior preço dos alimentos feitos de farinha de soja além dos medicamentos para o gado leiteiro. No cálculo argentino também contava-se que a necessidade de importar por parte do Brasil é maior que a produção interna, e que assim, continuaria a compra de lácteos argentinos.

mockup