Vânia Casado
De Brasília
O Banco do Brasil vai abrir inquérito administrativo para apurar de onde saíram as informações sobre as 100 maiores dívidas do setor agropecuário com o banco, divulgadas pelo jornal ‘‘Folha de São Paulo’’ no último domingo. Segundo o superintendente estadual do Banco do Brasil no Paraná, João Carlos de Mattos, essas informações são de sigilo bancário e não poderiam ser transmitidas ao público.
Mattos até admite que a listagem possa ter saído dos computadores do BB, mas salientou que muitas estão com valores incorretos e outras não constam as renegociações que vêm sendo feitas. Mattos destacou que o BB não reconhece a lista e vai apurar internamente a origem do vazamento. ‘‘ Até porque todas as operações internas são abrangidas pelo sigilo bancário’’. Segundo o gerente, somente as dívidas executadas podem ser de domínio público e a listagem divulgada não consta nenhuma empresa que está sendo executada.
O total das dívidas das empresas paranaenses, listadas entre as 100 maiores devedoras, somam R$ 268,5 milhões, sendo a maior parte cooperativas. A Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar) defendeu suas associadas, argumentando que as dívidas foram contraídas em função de planos econômicos editados no passado, que obrigaram as cooperativas a fazerem o papel de governo nos financiamentos aos produtores. Sem financiamento bancário para comprarem os insumos necessários para o plantio das safras, as cooperativas tomaram empréstimos no banco e repassaram aos cooperados.
Uma das empresas privadas, que está relacionada na listagem, a Usina de Açúcar Santa Terezinha Ltda, se manifestou através do diretor financeiro da empresa Paulo Meneguette. Ele disse que a empresa é cliente do Banco do Brasil há mais de 30 anos e não tinha nada a declarar sobre informações que são de sigilo bancário. ‘‘ O BB pode dar as explicações necessárias, já que o próprio banco quebrou o sigilo’’.
Na verdade esse episódio evidencia a guerra da informação que o governo federal está fazendo, interpretou o diretor Osmar Pomini, da Cooperativa Agropecuária de Goioerê (Coagel). Segundo ele, o governo joga a opinião pública contra os agricultores, quando na verdade ‘‘ ele é que provocou toda essa situação, que não é recente’’. A dívida da Agricultura vêm desde 1989, quando o governo autorizou a cobrança de uma série de índices de correção sobre os juros anuais cobrados nos financiamentos bancários.
Dos R$ 29,6 milhões devidos pela Coagel, 59,98% são dívidas referentes à cotas-partes de responsabilidade dos produtores. A cooperativa contraiu financiamento junto ao BB e repassou aos produtores os insumos necessários ao plantio da safra, já que o crédito junto ao banco estava restrito e os produtores não estavam tendo acesso a tempo de semear.
Ocorre que com o acúmulo de taxas e sobretaxas de correção, o produtor foi perdendo a capacidade de pagamento até que em 1995. Com a queda dos preços dos produtos agrícolas, o produtor não tinha mais rentabilidade para pagar o financiamento. No caso das dívidas da Coagel, naquele ano o custo de produção do algodão estava em R$ 7,50 a arroba, enquanto que o produto foi vendido a R$ 5,00 a arroba. A dívida da Coagel está sendo renegociada através Programa de Revitalização das Cooperativas. Pomini afirmou ainda vai negociar uma revisão da dívida para ‘‘enxugar’’ os índices.

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