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Inflação tem a maior alta em 25 anos para o mês de maio

IPCA avançou 0,83% no país e atingiu o maior resultado para maio desde 1996 (1,22%), segundo levantamento do IBGE. No acumulado de 12 meses, a alta chegou a 8,06% (cima da meta de inflação de 5,25% neste ano)

Leonadro Vieceli Folhapress
Leonadro Vieceli Folhapress

 

Inflação tem a maior alta em 25 anos para o mês de maio
Gustavo Carneiro/18/02/2021
 



Pressionado pela energia elétrica, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) acelerou em maio. No período, o indicador oficial de inflação avançou 0,83% no país, após variação de 0,31% em abril. Foi o maior resultado para maio desde 1996 (1,22%), informou nesta quarta-feira (9) o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).



Com isso, o IPCA aumenta a distância em relação ao teto da meta de inflação. No acumulado de 12 meses até maio, a alta chegou a 8,06%. A variação estava em 6,76% até abril. O teto da meta de inflação é de 5,25% neste ano. O centro da meta é de 3,75%.


O resultado de maio ficou acima das previsões do mercado. Analistas consultados pela agência Bloomberg projetavam variação de 0,71% no período.

Conforme o IBGE, os nove grupos de produtos e serviços pesquisados apresentaram alta no mês. O maior impacto (0,28 ponto percentual) e a maior variação (1,78%) vieram de habitação, que acelerou em relação a abril (0,22%).

O resultado desse grupo é atribuído, especialmente, à elevação na energia elétrica, que subiu 5,37% e teve o principal peso no índice entre os itens (0,23 p.p.). A conta de luz mais cara está relacionada à crise hídrica.

Em maio, passou a vigorar no país a bandeira tarifária vermelha patamar 1, que acrescenta R$ 4,169 na conta de luz a cada 100kWh (quilowatt-hora) consumidos.

Com a escassez de chuva, os custos de geração de energia elétrica ficam maiores, o que gera repasse para os consumidores. Segundo o economista Marcos Rambalducci, da UTFPR (Universidade Federal Tecnológica do Paraná), o reflexo que tem a energia elétrica decorrente do estresse hídrico que o Brasil está passando é muito semelhante ao aumento dos combustíveis no preço de todos os produtos.  "São dois insumos utilizados de uma maneira muito sensível em todo setor produtivo. Evidentemente isso pode trazer um aumento”, destacou.


 Sobre a crise hídrica, ele explicou que isso faz com que o operador pare de gerar energia elétrica de origem hidrelétrica e passe a gerar com usinas de carvão, à óleo diesel e qualquer outro combustível de base fóssil, para evitar baixar o nível dos reservatórios. “Claro que o fato de ter esse processo de inflação, com a economia se recuperando ela vai acabar trazendo mais inflação. Se a economia precisa se recuperar, ela necessita mais ainda de energia elétrica em um momento de crise hídrica. Isso faz com que o operador nacional autorize maior produção de energia elétrica oriunda de combustível fóssil, que são mais caras. Por isso tem aquela bandeira tarifária, que é aumentada em função do aumento do custo da geração de energia elétrica dessa natureza”, apontou.


A situação segue no radar de analistas. É que, no último dia 28, a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) citou as dificuldades hídricas ao anunciar a aplicação do patamar 2 da bandeira tarifária vermelha para o mês de junho, ao custo de R$ 6,243 para cada 100kWh de consumo.


Durante a pandemia, o IPCA também ganhou corpo com a disparada de preços de alimentos e, em seguida, de combustíveis. Alta do dólar e avanço das commodities ajudam a explicar o comportamento desses itens na crise sanitária.


Rambalducci explicou que, no último ano, houve a explosão dos preços no setor alimentício. “Enquanto estamos falando em bater o teto de 5% ou 6% de inflação, a cesta básica subiu 23% ao ano. Isso é muito agressivo. O que a gente está podendo perceber é que estes alimentos começam a entrar em regime de menor inflação. O arroz vai entrar em linha e o óleo de soja ainda está em elevação, mas essa alta não é tão significativa. O que a gente pode antever é que pelo menos os alimentos vão colaborar para reduzir um pouco a inflação”, declarou.



Conforme o IBGE, o segundo maior impacto na inflação de maio veio do grupo transportes (0,24 p.p.), que teve aumento de 1,15%. Dentro desse segmento, a alta da gasolina, de 2,87%, foi a que mais chamou atenção. Em abril, os preços do combustível haviam recuado 0,44%.


“Talvez não seja o momento de ser pessimista com uma inflação que ultrapasse o teto da inflação estabelecido pelo Banco Central. Ela vai estar muito próxima do teto, sem dúvida, mas pela taxa de câmbio do dólar, que começa a cair, o preço do combustível pode vir a cair e isso pode compensar este aumento”, destacou Rambalducci.


“Ainda é muito cedo para falar em uma pressão de demanda. O que se observou foi uma pressão de preços monitorados, como energia e combustíveis”, apontou Pedro Kislanov, gerente da pesquisa do IBGE, lembrando que o desemprego em alta inibe o consumo das famílias.

“Alguma demanda pontual pode estar relacionada ao auxílio emergencial, em produtos como eletrodomésticos, equipamentos, vestuário”, acrescentou.


Em maio, o grupo de saúde e cuidados pessoais teve alta de 0,76%, enquanto o de alimentação e bebidas avançou 0,44%. Os segmentos tiveram impacto de 0,10 p.p. e 0,09 p.p. no índice do mês, atrás de habitação e transportes.

Em uma tentativa de frear a inflação, o Copom (Comitê de Política Monetária) do BC subiu a taxa básica de juros no começo de maio. À época, confirmou aumento de 0,75 ponto percentual na Selic, que passou para 3,50% ao ano.


Na ocasião, o Copom também sinalizou nova alta na mesma magnitude em junho, para 4,25%. O colegiado volta a se reunir na próxima semana.

“É evidente, um processo inflacionário toma parte do consumo das famílias e mitiga o avanço da economia", afirma Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos. "A gente deve continuar assistindo a esse avanço nos próximos meses. O acumulado em 12 meses só deve ceder perto do último trimestre do ano, com o efeito da base de comparação", acrescenta.

Em 2021, o IPCA registrou alta de 3,22% até maio.


Rambalducci relembrou que a inflação está atingindo o mundo inteiro.  “Vários países têm apresentado um repique no seu processo de inflação em função desta pandemia.  Segundo ele, por outro lado há alguns ingredientes que vão ajudar a levar um pouco para baixo esse indicador. 



Ele afirmou que ainda não vê com nitidez o mercado reajustando antevendo uma possível inflação para se proteger da alta. “O mercado ainda está muito restritivo. Quem fizer esse repasse dessa alta ou tentar fazer isso vai acabar não vendendo. É diferente daquela década de 1980, onde esse processo era obrigatório. Se o comerciante empurrar muito os seus custos será um desserviço para ele próprio. Ainda não vejo uma tendência inercial como componente desse índice”, declarou. (Com Vítor Ogawa/Grupo Folha)

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