São Paulo - A aceleração do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em fevereiro, que subiu 0,78% na maior variação para os meses de fevereiro desde 2003, reforçou o debate sobre uma possível alta dos juros básicos da economia. Para uns, o resultado divulgado ontem já permitiria ao Comitê de Política Monetária (Copom) elevar a Selic já na reunião dos dias 16 e 17 de março, como é o caso de Zeina Latif, economista-chefe do ING no Brasil. Já a economista-chefe da Icap Brasil, Inês Filipa, avalia que o Copom inicie somente entre as reuniões de abril e junho o processo de retomada do ciclo de alta da Selic.
Segundo Zeina, além do avanço do IPCA, soma-se às preocupações a deterioração nas expectativas de inflação, o que justificaria que o aperto da política monetária se iniciasse já em março. A economista acrescentou que seria prudente e saudável começar o ajuste da taxa Selic agora.
Para Zeina, os números reforçam o ''diagnóstico de que a inflação merece ser monitorada atentamente, em face da contaminação que cria na economia''. A contaminação está ligada à deterioração das expectativas de inflação na visão dos agentes do mercado. Embora a analista avalie que o quadro de inflação neste ano não deve ser tão preocupante quanto o de 2008, ela avisa que o IPCA poderá ''facilmente ficar um pouco acima do centro da meta de inflação (4,5%), com o risco de contaminar as expectativas inflacionárias de forma mais acentuada''.
Para Zeina, chama atenção a deterioração das expectativas para 2011, mostrando os analistas mais preocupados com a inflação de demanda. A contaminação mostrada na pesquisa Focus nesta semana é considerada ainda moderada, sendo que, depois de 86 semanas no nível de 4,50%, as expectativas para 2011 subiram para 4,53% esta semana. No entanto, ela considera que o IPCA divulgado ontem já é garantia de nova elevação das expectativas na pesquisa conduzida pelo BC que será divulgada na segunda-feira, dia 8. ''Então, na hora em que fica esse incômodo em relação à contaminação, já é um bom momento para fazer a normalização do juro'', argumentou.
Já Inês, da Icap Brasil, avalia que um possível início de aperto na política monetária ocorreria a partir de abril pois só então o BC terá informações mais consistentes sobre demanda, atividade e inflação para balizar suas tomadas de decisões no que se refere à taxa de juros. ''O IPCA veio abaixo da mediana das expectativas do mercado (0,81%), registrando alta de 0,78% em fevereiro, resultado acima da nossa projeção de taxa de 0,75%'', admite a economista, em relatório enviado a clientes.
Para ela, o índice mostrou importante arrefecimento se comparado com o IPCA-15, quando o índice registrou alta de 0,94%. ''Destaque para a menor aceleração do grupo transportes e arrefecimento das demais classes de despesa, sem exceção.''
Nesta apuração, confere a economista da Icap, as maiores pressões de alta se repetiram com alimentação, transportes e educação, respondendo por 89% da alta do IPCA, variação de 0,68%. ''Os alimentos seguiram ainda bem pressionados, porém num ritmo inferior se comparado com o mês anterior, destaque para a alta dos legumes (tomate), cereais (arroz, feijão), açúcar e hortaliças'', observou Inês.
Na ponta oposta, carnes, aves e ovos mostraram deflação, assim como a alimentação fora do domicílio, que recuou. O grupo transportes passou de 1,45% para 0,79%, beneficiado pela menor pressão do reajuste do transporte público e menor impacto da alta da gasolina (0,97% ante 1,33%) e álcool (3,21% ante 11,09%). ''As demais classes de despesa mostraram bom desempenho, destaque para o arrefecimento das despesas pessoais (0,40% ante 0,77%), com o item recreação mostrando variação negativa.
Já os serviços pessoais mostraram aceleração na margem, puxados pela alta dos serviços de salão e cartório'', explica a chefe do Departamento Econômico da Icap Brasil.
De acordo com Inês, o resultado mais favorável do IPCA ante a mediana das expectativas do mercado trouxe núcleos também melhores que a mediana projetada. A atenção fica para a alta de 4,55% do grupo Educação, afetando o desempenho dos núcleos.
O IPCA-EX, que exclui os preços dos alimentos no domicílio e administrados registrou variação de 0,67% (cálculo feito pela Icap), resultado acima do observado em janeiro (0,59%), pressionado pela alta da Educação e alguns serviços pessoais.
O núcleo dos preços livres também superou o resultado de janeiro (0,92% ante 0,70%), refletindo a pressão dos alimentos, educação e serviços. ''Os destaques positivos foram os preços administrados, mostrando importante arrefecimento (0,42% ante 0,82%) e o Índice de Difusão, que caiu de 69% para 61%'', ressalta a economista.
De modo geral, sublinha a economista, a inflação nesta apuração veio ainda bastante pressionada, principalmente por fatores sazonais, mostrando moderados reajustes de preços no setor de serviços e também de bens duráveis.

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