Os preços dos produtos e serviços ficaram mais salgados para a terceira idade em 2018. O Índice de Preços ao Consumidor da Terceira Idade (IPC-3i) acumulou alta de 4,75% no ano passado, mais do que o IPC-BR, que ficou com taxa acumulada de 4,32% no mesmo período. As categorias de saúde e alimentação foram as que sofreram maior variação.

Os planos de saúde subiram 10,07% e as consultas médicas 9,74%, destaca André Braz, coordenador do IPC do FGV IBRE. "São itens essenciais para a terceira idade e que subiram quase o dobro da inflação média. É algo de que os idosos não podem abrir mão", observa o coordenador. A saúde compromete 20,71% da renda do idoso. Braz lembra ainda que a inflação subiu mais que o salário mínimo. "Isso significa que o idoso teve que reduzir as despesas menos essenciais."

A alimentação é a categoria que teve o segundo maior aumento. "O peso da alimentação [nas despesas] na terceira idade é menor que o peso para os mais jovens. Mas o idoso usa a alimentação em benefício de sua saúde", comenta Braz. Por isso, alimentos in natura são bastante presentes na alimentação do idoso, e esses foram os que tiveram maior reajuste em 2018. As hortaliças e legumes subiram 35,85%, as frutas 10,53% e os laticínios 5,51%.

A expectativa é que a situação em 2019 se repita, alerta Braz, pois a previsão é que o fenômeno La Niña afete a agricultura e também os preços dos alimentos. "É um ano atípico, e a gente está um pouco receoso de que os preços fiquem além da inflação."

Para a professora aposentada Maria Bittencourt Reis, a alimentação é a categoria que mais compromete a renda
Para a professora aposentada Maria Bittencourt Reis, a alimentação é a categoria que mais compromete a renda | Foto: Mie Francine Chiba



ALIMENTOS SAUDÁVEIS
Segundo a professora aposentada Maria Bittencourt Reis, a alimentação é a categoria que mais compromete a renda. Os alimentos que ela costuma consumir para manter a saúde, como frutas, legumes e verduras, são mais caros em geral. Os suplementos alimentares também pesam no orçamento - custam de R$ 60 a R$ 100 o frasco, conta a aposentada.

"Tudo para o idoso é mais caro", comenta Andréa Danelon, secretária municipal do Idoso. E quanto maior o grau de dependência do idoso, maior o custo de vida, já que ele pode precisar de cadeira de rodas, andador, casa adaptada, fralda geriátrica, cuidador, etc. Além disso, a terceira idade passou a ser vista como um público consumidor com alto potencial e se tornou um filão do mercado, contribuindo para a elevação dos preços de produtos e serviços para a terceira idade, opina Claudia Forte, superintendente da AEF-Brasil (Associação de Educação Financeira do Brasil).

SUPORTE FAMILIAR
Para agravar a situação do idoso, muitos deles contribuem para as finanças da família com a sua aposentadoria. Esse também é o caso da aposentada Maria Reis, que ajuda os filhos com as despesas dos netos, como materiais para os estudos e roupas. Assim, não sobra dinheiro para o lazer, que fica em segundo plano. "Economizo no meu lazer. Mas faria tudo de novo", ressalva.

"Os idosos têm um benefício que não combina com a realidade econômica do País e muitos têm famílias que se aproveitam da sua situação de inatividade e do valor da aposentadoria", relata Forte, da AEF-Brasil. A Associação de Educação Financeira do Brasil foi criada para executar a Enef (Estratégia Nacional de Educação Financeira), uma política pública lançada para disseminar a educação financeira no País em 2010. Um de seus projetos é voltado aos idosos. Nos primeiros anos do projeto, a entidade passou alguns dias na casa de idosos para entender a sua realidade. Há casos de famílias desestruturadas que se aproveitam da aposentadoria dos idosos. "São situações muito frágeis."

Segundo a superintendente, uma das maiores dificuldades enfrentadas pela terceira idade nas finanças é a falta de planejamento. "Eles tomam decisões financeiras de acordo com a pressão que sofrem." A perda da autonomia, na visão de Forte, é outro fator crítico. "Os idosos também sofrem de desestímulo, perda de autonomia. Eles param de trabalhar e pensam que não são mais importantes."

Segundo Ana Karina Anduchuka, diretora de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa da Secretaria Municipal do Idoso, também é grande o assédio que os idosos sofrem de bancos e financeiras oferecendo-lhes empréstimos. Esse é um dos motivos pelos quais a Secretaria Municipal do Idoso resolveu realizar duas vezes ao ano oficinas sobre finanças para a terceira idade abordando temas como juros, empréstimos, pesquisa de preços. A ideia não é influenciar a decisão dos idosos, mas dar-lhes autonomia e muni-los de informações para que tomem decisões conscientes e por conta própria, detalha a diretora.

Planejamento é chave para realização de sonhos
Ao fazer o planejamento das finanças, o primeiro passo é listar todas as receitas e despesas. "Mas não tem que ter medo de fazer isso. Os idosos são de uma geração em que estar endividado é um problema. As questões financeiras iam para o leito e os filhos não sabiam o que estava acontecendo", observa Claudia Forte, da AEF-Brasil.

Com o detalhamento do orçamento doméstico em mãos, é hora de estabelecer metas para a realização de sonhos. Pode ser desde a compra de um óculos novo a uma viagem. E para isso, deve-se lançar mão de estratégias para poupar dinheiro. Vale até mesmo poupar o troco da padaria em vez de gastar com balas para o neto, por exemplo, atitude que não faz bem nem para a saúde da criança, nem para o bolso. "Um dos objetivos é estimular a formação de reservas com metas distintas, de curto ou longo prazo", comenta Forte.

Outra estratégia é usar a metáfora do semáforo. Assim como diante do farol de trânsito deve-se parar, pensar para depois seguir, antes de qualquer compra, o idoso deve refletir antes de tomar qualquer decisão financeira, especialmente se estiver no vermelho, explica a superintendente. "No vermelho, deve-se analisar o cenário para ver se cabe no orçamento, decidir se é mesmo importante. Uma coisa é o que você quer, e outra é o que você precisa."

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