Rio de Janeiro - Os aumentos de preços nos últimos 11 anos afetaram mais o orçamento dos idosos, segundo dados do Índice de Preços ao Consumidor da Terceira Idade (IPC-3I), lançado ontem pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Neste período, a inflação da terceira idade foi 18% superior a do conjunto da população brasileira.
De 1994 a 2004, a inflação acumulada no varejo para o conjunto da população chegou a 176,50%. Para os idosos, este percentual sobe para 226,14% no mesmo período. Os resultados mostram uma diferença de quase 50 pontos percentuais. O IPC-3I dá pesos diferentes no cálculo da inflação a produtos que têm mais impacto no orçamento dos idosos, como saúde e lazer.
Segundo o chefe do Centro de Políticas Sociais da FGV, Marcelo Neri, uma das hipóteses que justificam o comportamento do índice é o ganho de renda nominal na terceira idade com a universalização da aposentadoria rural e as mudanças na aposentadoria do funcionalismo público.
Para Neri, o aumento pode ter propiciado o surgimento de uma inflação de demanda. ''Produtos voltados para esse grupo tiveram reajustes maiores para se apropriar desse aumento, uma parte do ganho de renda da terceira idade foi retirada por meio de uma inflação maior'', disse.
O economista destaca que 16% da renda das famílias brasileiras vem de aposentadorias e pensões, um percentual que tem crescido nos últimos anos. Existem hoje no Brasil 18 milhões de aposentados e pensionistas e 60% dos benefícios correspondem a um salário mínimo.
O coordenador do IPC, André Braz, explica que a própria composição da cesta de produtos do índice contribui para a diferença. Isto porque os produtos que apresentaram reajustes maiores têm peso superior no orçamento dos idosos, como alimentos, tarifas e serviços de saúde.
Na avaliação de Neri, a criação do índice é uma tentativa de dar uma ''face humana'' à inflação, por meio da observação de segmentos específicos da sociedade. De forma geral, entre os jovens, o item de maior destaque é educação. Para os adultos, a principal influência vem de transporte e itens relacionados ao trabalho. Na inflação dos idosos, ganham destaque itens como saúde e lazer.
O grupo Saúde representa 15,03% do orçamento dos idosos. No conjunto da população, seu peso cai para 10,36%. A pesquisa mostra, no entanto, que mesmo entre os idosos existem diferenças significativas no peso deste item no orçamento. Para os idosos de renda mais alta, os planos de saúde exercem um impacto superior ao dos medicamentos, por exemplo. Os serviços de saúde representam 8,5% do orçamento dos idosos de renda superior a 8 salários mínimos e 5,1% entre os idosos de baixa renda.
''Dessa forma, é possível desenhar com precisão o impacto de políticas públicas como a criação das farmácias populares ou a imposição de limites de reajuste nos planos de saúde'', afirmou Neri.

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