Inflação é baixa, mas tarifas castigam orçamento das famílias
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terça-feira, 25 de setembro de 2018
Nelson Bortolin Reportagem Local 
Apesar de a inflação nos últimos meses ter batido recordes de baixa a ponto de terminar agosto com resultado negativo de 0,09% - a menor taxa em 20 anos para o mês -, muitos brasileiros, especialmente os de menor renda, não têm sentido esse alívio no bolso. Além do desemprego continuar alto, o que reduz a renda, o elevado reajuste das tarifas ampliou os gastos das famílias com despesas obrigatórias, como energia elétrica, gasolina, gás e passagem de ônibus. Com isso, uma parcela crescente do orçamento, que já passa de 25%, vem sendo comprometida com esses gastos, sobrando menos recursos para outras despesas.
Em 2018, pelo segundo ano seguido, os preços administrados, aqueles cujos reajustes são determinados pelo governo e independem da oferta e da demanda, estão subindo muito acima da inflação geral e também dos preços livres, não regulados. De janeiro a agosto, os administrados aumentaram 6,64%, mais que o dobro da inflação geral de 2,85%, medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), e superaram o avanço dos preços livres (1,55%).
No ano passado, os administrados tinham subido 5,08% entre janeiro e agosto e fecharam o ano em 8%. Economistas calculam que os preços administrados repetirão a alta de 8% neste ano.
Diferenças entre a inflação das tarifas e dos preços livres também são gritantes no período mais longo de 12 meses até agosto. Dados do IPCA mostram que os administrados aumentaram 9,59%, enquanto a inflação geral subiu 4,19% e os preços livres avançaram 2,40%.
Dos dez itens que mais contribuíram para o aumento da inflação nesse período entre os cerca 400 que compõem o IPCA, quatro são administrados: gasolina, energia, plano de saúde e gás de botijão. Essas quatro tarifas responderam por 50% da inflação geral do período.

DESIGUAL
A inflação das tarifas provoca um grande estrago no orçamento das famílias porque diz respeito a preços de produtos e serviços que são difíceis de serem substituídos ou cujo consumo não pode ser evitado. "O fato de as pressões de preços estarem concentradas em bens e serviços de difícil substituição ou postergação do consumo provoca uma redução da sensação de bem-estar das pessoas, a despeito de a inflação geral estar bem comportada e abaixo do centro da meta de 4,5%", afirma o economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio, Fabio Bentes.
As famílias mais pobres sofrem mais. No mês passado, por exemplo, as que tinham renda mensal de até R$ 4,7 mil gastaram 2,17% do orçamento com gás de botijão, 4,71% com a conta de energia e 5,16% com ônibus, um total de 12%. Já para os mais ricos, que recebem até R$ 38,1 mil mensais, essas despesas pesaram 1,35%, 4,03% e 2,72%, respectivamente, ou seja, 8,1%.
"Assim como acontecem com os preços dos alimentos, as tarifas castigam proporcionalmente mais os pobres", afirma o economista, professor da UTFPR e colunista da FOLHA, Marcos Rambalducci. "E não dá para ficar sem luz, água e gás", complementa.
De acordo com ele, a seca é a principal responsável pelo aumento dos preços da energia elétrica. "Com menos água nas hidrelétricas, é preciso acionar formas de energia mais caras como as termelétricas." No caso do combustível e do gás de cozinha, a nova política da Petrobras, de acompanhar os preços internacionais, é um dos principais fatores de pressão sobre os preços. "A questão cambial pesa ainda mais. Se o dólar vai de R$ 3 a R$ 4, isso já significa um aumento de 33% sem que tenha havido qualquer reajuste dos preços internacionais", destaca. "O problema é que os preços livres seguem a lógica da oferta e da procura, mas os administrados, não."
FALA POVO

"O pouco que a gente ganha, eles tiram do outro lado", afirma a comerciante Iracema Polimeni, que viu a conta de seu estabelecimento saltar de R$ 200 para R$ 300 em pouco tempo. "Os preços de gás, água e luz são absurdos", critica.

O assistente social Nivaldo dos Santos acredita que as contas de água e luz e o preços dos combustíveis estão mais altos devido aos impostos incidentes sobre eles. "Os impostos sufocam nossos salários", conta ele, ressaltando que já renegociou várias contas com as companhias. "Estou na informalidade e não tenho salário fixo, situação que dificulta o pagamento das despesas."

Já o advogado Antônio Alves Pereira diz que não costuma acompanhar as contas. "Sou meio relaxado, não fico observando. Mas para quem ganha menos deve pesar bastante." (Com Agência Estado)


