Inflação dos bens de capital pode atrapalhar investimentos
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domingo, 06 de fevereiro de 2005
Nilson Brandão Junior<br> Agência Estado 
RIO - O aumento dos preços dos bens de capital está encarecendo os investimentos no País. No acumulado dos últimos dois anos, estes produtos ficaram 37% mais caros taxa muito acima da inflação no atacado (22%) e ao consumidor (16%), conforme os índices da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Para o primeiro trimestre de 2005, as previsões de reajustes já estão maiores do que no início do ano passado, conclui sondagem da mesma instituição. O cenário preocupa economistas que estudam o assunto, já que a inflação dos bens de capital pode atrapalhar os investimentos e o crescimento.
Na prática, o problema não vem de hoje. Nos últimos 20 anos, os preços dos bens de capital subiram muito, conforme levantamento feito pelo professor da fundação Samuel Pessôa. Os dados mostram que entre 1980 e 2000 os preços dos bens de investimento subiram 50% acima da média do resto da economia brasileira. ''Houve um encarecimento relativo dos bens de capitais. Isso reduz o investimento, porque ele fica mais caro, e gera uma redução do crescimento da economia'', diz o professor da FGV.
O estudo, com informações para 83 países de um banco de dados da Universidade da Pensilvânia, cujos dados serão divulgados na próxima ''Revista da Conjuntura Econômica da FGV'', deixa claro que os países que tiveram crescimento alto desde 1960 registraram preços dos bens de capital relativamente baixos e estáveis. Para Pessôa, a economia fechada na década de 1980, com alíquotas de importação elevadas, e a elevação da carga tributária na década seguinte podem explicar o encarecimento dos bens de investimento (máquinas, equipamentos, instalações de construção civil).
Desde o segundo trimestre de 2003 esta pressão voltou a ficar mais forte, explica a especialista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Mérida Herasme Medina. Segundo ela, os aumentos dos preços do aço têm sido apontados como um dos motivos da elevação recente dos custos, mas podem não ser a única explicação. ''Não sabemos por quê o setor está mais caro do que o resto da economia'', pondera, citando que economistas que acompanham a evolução do investimento estão analisando com lupa o assunto.
''Se os gastos para o investimento aumentam o empresário ou repassa os preços para frente ou simplesmente pára o projeto. Pode chegar a um momento em que a continuidade dessa inflação de investimento acabe inibindo a própria demanda por bens de capital'', diz a especialista do Ipea. Mérida explica, ainda, que tem havido, de fato, crescimento do volume físico dos investimentos e que o aumento de preços faz aumentar os gastos para a realização dos projetos.
O próprio Ipea já indicou, no seu boletim, que ''parte do crescimento da relação investimento/PIB decorre do aumento dos preços dos bens de capital e insumos da construção civil em relação aos demais bens da economia, ou seja, decorre do aumento do custo do investimento''. Nos últimos dois anos, o setor de bens de capital, que já vinha atendendo o mercado externo, ficou ainda mais aquecido com a retomada dos investimentos domésticos. Segundo a sondagem industrial da FGV, o nível de utilização da capacidade instalada do setor em janeiro (83,9%) está bem acima da média histórica dos últimos 35 anos (75,6%).
Dentre as categorias industriais, a de bens de capital foi a única que registrou aumento na fatia das empresas que estão prevendo reajustes de preços para o primeiro trimestre: eram 24% no início do ano passado e agora são 39%. Em alguns ramos específicos, estas intenções estão bem mais fortes, caso de equipamentos para instalações hidráulicas (81% querem reajustar preços), máquina para a produção (58%), tratores e máquinas de terraplanagem (78%), caminhões e ônibus (63%) e carrocerias para veículos (100%).


