Inflação dos alimentos reacende alerta mundial
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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
Gustavo Nicoletta<br> Agência Estado 
São Paulo - Há pouco mais de dois anos os preços mundiais dos alimentos tocaram um nível recorde, impulsionados por um descompasso entre oferta e demanda e por um maior fluxo de investimentos direcionado ao mercado de commodities. A explosão da crise financeira alterou esse cenário, esfriando o consumo e deixando a comida mais barata. Em 2010, no entanto, o custo dos alimentos voltou a crescer, atingindo níveis preocupantes.
O índice de preços de alimentos da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), que monitora cereais, carnes, laticínios e outros produtos, subiu ininterruptamente desde julho deste ano e em novembro tocou 205,4 pontos. Em junho de 2008, quando atingiu patamar recorde, esse mesmo índice estava em 213,5 pontos.
Naquela época, várias manifestações - algumas delas violentas - ocorreram em diversos países, especialmente nos mais pobres e em regiões que precisavam importar comida, refletindo a indignação da população com o aumento no custo de vida. O encarecimento dos alimentos também provocou situações peculiares. No Camboja, por exemplo, os mercados locais tiveram de responder à repentina demanda pela carne de rato. O produto era tradicionalmente consumido no país, mas se tornou mais popular em meados de 2008 porque a carne de porco, preferida dos cambojanos, chegou a custar quatro vezes mais do que a de rato, obrigando muita gente a buscar a alternativa mais barata.
Em 2010, voltamos a viver um período de preços elevados e voláteis, opina Ekaterina Krivonos, representante de comércio e mercados do escritório regional da FAO para América Latina e Caribe. ''As principais causas da última alta são o deficit inesperado na oferta de algumas safras chave em razão de condições meteorológicas desfavoráveis, as decisões políticas de alguns países exportadores e as flutuações nos mercados de câmbio'', acrescentou.
O aumento no custo dos alimentos neste ano foi provocado inicialmente por problemas com a produção de trigo, particularmente nos países da antiga União Soviética, com Rússia e Casaquistão sendo atingidos por secas rigorosas que tornaram as estimativas para a colheita menos promissoras do que se esperava. Diante do prognóstico pouco favorável, o governo russo anunciou em agosto restrições às exportações do cereal, gerando mais preocupações com a oferta e ajudando a elevar os preços.
Em novembro, esse movimento de alta foi acentuado pela desvalorização do dólar. Nos mercados internacionais, os produtos geralmente são negociados com a moeda norte-americana. Como ela perdeu força durante o período, esses produtos ficaram mais baratos para alguns compradores que detinham, por exemplo, reais ou euros, já que passaram a ser necessárias menos unidades dessas moedas para comprar alimentos negociados em dólares. Isso aumenta a demanda por essas commodities e, por sua vez, contribui para impulsionar os preços.


