A inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficou acima das expectativas em maio: 0,78%. É a maior para o mês desde 2008. O acumulado de 12 meses, que vinha caindo desde janeiro, teve leve alta - de 9,28% em abril para 9,32% no mês passado. E ainda está bem acima do teto da meta, de 6,5%. Os dados foram divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Segundo o IBGE, o reajuste das tarifas de água esgoto em algumas capitais foi o principal fator a justificar o índice acima do esperado. Por conta desse aumento, o grupo habitação foi o que teve a maior inflação: 1,79%. Outros com elevações importantes de preços foram saúde e cuidados pessoais (1,62%) e despesas pessoais (1,35%). Bebidas e alimentos subiram 0,78%.
Economista e professor da Universidade de São Paulo (USP), Simão Silber diz que o IPCA ainda reflete o choque de preços públicos patrocinado pela gestão da presidente Dilma Rousseff (PT), assim que foi reeleita, em outubro de 2014. Na época, o índice acumulado em 12 meses estava em 6,56% e subiu até 10,71% em janeiro deste ano, quando começou a cair.
"Esse choque dos preços controlados ainda está repercutindo na economia", afirma Silber. Ele lembra que, durante cerca de dois anos, Dilma segurou os preços controlados, como gasolina e medicamentos, assim como a taxa de câmbio. "Quando soltou, a inflação disparou."
O economista acredita que a inflação irá cair para 7,2% no acumulado de 12 meses até o fim do ano. Questionado sobre o porquê de a inflação manter-se alta mesmo num momento de retração econômica, com demanda caindo diante da oferta, ele diz tratar-se do "pior dos mundos". "É a famosa estagflação, com desemprego e inflação em alta."

Expectativas
Neste caso, não é a lei da oferta e da procura que determina o aumento de preços, mas as expectativas dos empresários. "Não podemos esquecer que desde 2011 Dilma interveio no Banco Central, que perdeu credibilidade. O governo prometeu 4,5% de inflação (centro da meta) e entregou mais de 7%."
Márcio Massaro, economista e coordenador do curso de administração da Faculdade Paranaense (Faccar), concorda. "A teoria econômica prevê diferentes tipos de inflação. A da demanda (quando a oferta é menor que a procura) é aquela que se pode combater com alta de juros. Mas a que existe hoje é a de expectativa. Prevendo que a inflação vai aumentar num cenário próximo, o empresário já se antecipa e remarca seus preços." O processo contrário, ou seja, quando o empresário segura os preços prevendo que a inflação irá baixar, é mais demorado, segundo ele.
Massaro é otimista em relação à queda da inflação porque, na opinião dele, a atual equipe econômica – ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e o futuro presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn – tem total confiança do mercado. "Ilan já mostrou-se ortodoxo, diz que vai combater a inflação e manter o câmbio flutuando, coisa que o mercado adora."
Além da melhora das expetativas, Massaro ressalta que o preço da energia elétrica está em queda, devido à bandeira verde, e não há notícias de reajuste do combustível. O economista acredita inclusive que, em breve, o Banco Central irá sinalizar para o mercado a queda na taxa básica de juros da economia, a Selic, hoje em 14,25% ao ano.

Economia concentrada
Já o economista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Fabiano Camargo da Silva, acredita que a dificuldade de se controlar a inflação no Brasil se deve em parte à "concentração" da economia. "Com economia concentrada , os empresários, mesmo não vendendo tanto, conseguem manter os preços altos", justifica.
Ele dá como exemplo a indústria automobilística. "Mesmo vendendo poucos carros, na comparação com anos anteriores, as montadoras não baixaram preços." Para o economista, esse é um problema específico do Brasil, que não se resolve "de uma hora para outra".

Imagem ilustrativa da imagem Inflação de maio fica em 0,78% e acumulado de 12 meses sobe
mockup