Inflação de alimentos em aceleração preocupa o mundo
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quarta-feira, 29 de agosto de 2007
Fernando Dantas<br>Agência Estado 
Rio de Janeiro - A inflação dos alimentos está se tornando uma grande preocupação de bancos centrais no mundo inteiro. O preço da comida está em alta mundo afora, puxado pela demanda crescente de gigantes asiáticos em fase de rápido enriquecimento, como a Índia e a China. Outro fator que vem pesando é o uso de terras agriculturáveis para a produção de biocombustíveis. É um problema que também atinge o Brasil. Nos últimos 12 meses, a inflação de alimentos e bebidas no IPCA, o índice oficial da meta de inflação, atingiu 7,9%, mais que o dobro do IPCA geral no período, de 3,7%. Em junho e julho, essa discrepância explodiu. Enquanto o IPCA dos alimentos teve inflação de 2,37% (o que equivale a 15% em termos anualizados), o índice cheio subiu 0,5%.
Os alimentos são itens que normalmente têm fortes oscilações, muitas vezes ligadas a questões climáticas. Em tese, a forte alta de junho e julho não deveria ser motivo de maior preocupação. Vista pelo prisma de uma tendência global, porém, a inflação da comida representa um perigo inflacionário bem maior, já que é um tipo de pressão que atua sempre na mesma direção de alta - e não, como as variações climáticas, nos dois sentidos.
''Quando há um choque de preços agrícolas num país, o Banco Central deve em princípio observar, e não reagir; mas se ele nota que é algo de natureza global, aí é motivo para ser mais cauteloso'', diz Gino Olivares, economista-chefe do Opportunity Asset Management.
O alarme global em relação à inflação dos alimentos soou mais forte recentemente, quando foi divulgado que a inflação em 12 meses da China atingiu 5,6% em julho, puxada pela alta de 15,4% nos alimentos. Crescendo há um ritmo anual médio acima de 9% há 30 anos, a economia chinesa parecia quase invulnerável às pressões inflacionárias, que por muito menos costumam castigar os países com crescimento muito acelerado.
Com um imenso contingente de trabalhadores rurais prontos para se mudar para cidades e trabalhar nas indústrias, o que mantém os salários em níveis baixíssimos, a China vem exercendo há muitos anos uma poderosa pressão deflacionária global. No caso dos alimentos, porém, está amarrada a um setor agrícola atrasado e à sua população gigantesca, criando uma pressão inversa - isto é, inflacionária - na economia global.
O consumo chinês de alimentos, que se vem acelerando com o enriquecimento da população, tem impactos quase diretos em outros países. O consumo de leite pelos chineses, por exemplo, está crescendo a um ritmo de 25% ao ano, e já atinge cerca de 30% da produção mundial, segundo algumas estimativas. Na Alemanha, que é um importante exportador de leite para a China, há previsões de que o produto pode subir até 50% na reabertura do ano escolar em setembro.
Nos Estados Unidos, o preço dos alimentos nos 12 meses até julho subiu 4,2%, bem mais do que os 2,4% da inflação geral. A alta dos alimentos é muito mais forte para produtos básicos, como leite, que subiu 21% em um ano, ou ovos, com alta de 34%.


