Safra recorde, clima e até a recessão são fatores que, segundo economistas, levaram à queda da inflação no ano passado
Safra recorde, clima e até a recessão são fatores que, segundo economistas, levaram à queda da inflação no ano passado | Foto: Gustavo Carneiro



A alta de 0,44% em dezembro, maior do ano, não foi suficiente para que a inflação oficial acumulada de 2017 fechasse acima do piso da meta de 3% fixado pelo Banco Central. O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) do ano passado, divulgado nesta quarta-feira (11) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), ficou em 2,95% e é o menor para um ano desde 1998.
Toda vez que o País não consegue cumprir a meta – a de 2017 era de 4,5% ao ano, com piso de 3% e teto de 6% -, o presidente do BC é obrigado a endereçar carta aberta ao ministro da Fazenda justificando o fato. Isso ocorreu nos anos de 2001, 2002, 2003 e 2015, com o IPCA ultrapassando o teto prefixado. Em 2017, pela primeira vez, o erro foi para baixo. Na carta divulgada no final da tarde desta quarta-feira, o presidente do banco, Ilan Goldfajn, disse ao ministro Henrique Meirelles que a queda dos preços dos alimentos levou à inflação menor que a prevista.
Segundo o IBGE, os alimentos recuaram 4,85% em 2017, com destaque para as frutas (-16,52%), que tiveram o maior impacto negativo (-0,19 ponto porcentual). O gerente do Sistema Nacional de Índices de Preços ao Consumidor, Fernando Gonçalves, diz que a queda dos alimentos foi consequência da produção agrícola, que teve uma safra cerca de 30% superior a 2016. "Essa situação levou o consumidor a pagar mais barato (-1,87%) do que no ano anterior. É a primeira vez que o grupo apresenta deflação desde a implementação do Plano Real".
Ainda segundo o IBGE, a queda nos preços dos alimentos ocorreu principalmente por conta dos alimentos para consumo em casa. "Com 15,67% de peso [no índice], estes alimentos caíram 4,85%, enquanto a alimentação consumida fora de casa, que pesa 8,88%, subiu 3,83%", afirma o órgão.

Imagem ilustrativa da imagem Inflação de 2017 foi a menor desde 1998



Combinação de fatores
O economista e professor da FAE e da UFPR (Universidade Federal do Paraná) Eugênio Stefanelo explica que o ano passado contou com uma "combinação excepcional" de fatores que resultaram na baixa de preços não só para os grãos, mas também para hortaliças, frutas e carnes. "Até mesmo a Operação Carne Fraca, que prejudicou as exportações, serviu para baixar o preço da carne no mercado interno. O clima colaborou. Não houve quebra em nenhuma cultura", enumera.
Para 2018, que tem a mesma meta do ano passado, as condições climáticas não devem ser as mesmas. "Sob efeito do La Niña devemos ter chuva abaixo do normal e mal distribuída", diz o economista, prevendo uma inflação mais para o centro da meta (4,5%). De acordo com o último boletim Focus, do BC, a projeção do IPCA para o ano é de 3,95%. "A produção de grãos não será tão favorável."
Além disso, segundo Stefanelo, um crescimento maior do PIB (Produto Interno Bruto) estimado em 2,69% em 2018 contra 1% do ano passado, aliado a uma maior oferta de crédito, também vão pressionar os preços para cima. "Mas não há nada que indique uma disparada da inflação", afirma.

Recessão
Economista e professor da Faccar (Faculdade Paranaense), Márcio Massaro diz que não foram somente os alimentos que levaram à inflação baixa. "Foram principalmente os alimentos, mas quando a gente analisa a taxa de dispersão do IPCA, tudo praticamente baixou", afirma. E isso, na opinião do economista, está relacionado com a recessão. "As pessoas não estão comprando", alega.
A capacidade produtiva ociosa das empresas, de acordo com Massaro, vai permitir que, mesmo crescendo a uma taxa de 3% em 2018, os preços fiquem controlados. "Tivemos três anos muito ruins. Se crescermos 3% não teremos pressão sobre preços nem sobre oferta de energia elétrica", acredita. Para ele, enquanto não for revertido o quadro de desemprego e o consumo voltar a subir significativamente, os preços estarão sob controle.

Consumidor tem sensação de alta

Para o bancário Antônio de Melo, sensação é de que os preços ficaram estáveis devido à baixa demanda por bens e serviços provocada pelo desemprego
Para o bancário Antônio de Melo, sensação é de que os preços ficaram estáveis devido à baixa demanda por bens e serviços provocada pelo desemprego | Foto: Gustavo Carneiro



Não adianta dizer que a inflação de 2017 foi a menor desde 1998 e que os preços dos alimentos recuaram no ano passado. A memória inflacionária do brasileiro fala mais alto. "Para mim, subiu mais que baixou", diz Joelma de Moura, funcionária de uma ótica em Londrina. Fazendo compra num supermercado do centro da cidade, ela se espanta ao saber do resultado do IPCA pela reportagem. "A gente vê preços que caíram e que subiram, mas a sensação é mais de alta", declara.
A jornalista Sara Hermógenes diz que não é a "melhor pessoa para falar sobre preços porque vai pouco ao supermercado", mas conta que também não teve sensação de baixa nos preços. "Não vi nada baixar. O preço do azeite, por exemplo, está bem alto", aponta.
O bancário Antônio de Melo conta que sua sensação é que os preços ficaram estáveis no ano passado. Ele não vê grande mérito do governo no controle da inflação. "Todos os dias atendo pessoas para rescisão (de contrato). O desemprego está grande. Sem emprego, ninguém compra", afirma. Para Melo, mais que o bom desempenho da safra, a baixa demanda por bens e serviços explica o IPCA menor desde 1998. (N.B.)

Preços administrados pressionaram IPCA
Rio - A inflação de 2017 foi marcada pelo reajuste de itens monitorados pelo governo. Na lista das dez maiores pressões, sete eram de itens chamados administrados. "Apenas dez itens responderam por 87% do IPCA de 2017. Esses mesmos itens tinham respondido por 32% do IPCA no ano anterior. Apenas três deles em 2017 não são itens monitorados", apontou Fernando Gonçalves, gerente na Coordenação de Índices de Preços do IBGE.
A alta de 13,53% no plano de saúde exerceu a maior pressão, uma contribuição de 0,48 ponto porcentual para a taxa de 2,95% acumulada no ano. Em segundo lugar figurou a gasolina, com aumento de 10,32% e impacto de 0,41 ponto porcentual, seguida pela energia elétrica, 10,35% mais cara, o equivalente a um impacto de 0,35 ponto porcentual.
Não por acaso o IPCA de 2017 foi puxado pelos grupos Habitação (com alta de 6,26% e impacto de 0,95 ponto porcentual), Saúde e Cuidados Pessoais (com alta de 6,52% e impacto de 0,76 ponto porcentual) e Transportes (com alta de 4,10% e impacto de 0,74 ponto porcentual). Juntos, os três grupos representaram 2,45 ponto porcentual do IPCA, ou 83% da inflação do ano. O resultado só não foi mais elevado porque o grupo Alimentação e Bebidas caiu 1,87%, com uma contribuição negativa de 0,48 ponto porcentual em 2017.

Planos de saúde
No grupo Saúde e Cuidados Pessoais, a pressão foi dos planos de saúde, mas também dos remédios (4,44%). Os dois itens têm peso importante no orçamento do consumidor, 3,88% e 3,47%, respectivamente. A Agência Nacional de Saúde (ANS) concedeu, em 2017, reajuste de até 13,55% para os planos de saúde. Nos remédios, o reajuste máximo autorizado pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) foi de 4,76%.
Nos Transportes, os destaques, além a gasolina, foram ônibus intermunicipal (6,84%), emplacamento e licença (4,29%), ônibus urbano (4,04%), conserto de automóvel (2,66%).
Em vigor desde 3 de julho de 2017, a nova política de preços da Petrobras - que permite à área técnica da companhia reajustar os preços dos combustíveis nas refinarias para acompanhar a taxa de câmbio e as cotações internacionais de petróleo e derivados - pressionou os preços dos combustíveis no varejo.
De 3 de julho a 28 de dezembro, quando encerrou a coleta do IPCA do último mês, foram concedidos 115 reajustes nos preços da gasolina, acumulando um total de 25,49% de aumento. Em julho, houve ainda reajuste na alíquota do PIS/Cofins dos combustíveis. Na gasolina, a alíquota passou de R$ 0,3816 para R$ 0,7925 por litro.
Os demais grupos com aumentos no ano foram Educação (7,11%), com destaque para os cursos regulares (8,37%); Despesas Pessoais (4,39%), com influência do item empregado doméstico (6,47%); Vestuário (2,88%), impactado por calçados (4,01%); e Comunicação (1,76%), com alta de 6,04% no telefone celular.
Por outro lado, os Artigos de Residência (-1,48%) contribuíram para conter a inflação do ano, com reduções em TV, som e informática (-6,50%) e eletrodomésticos (-2,65%). (Daniela Amorim/Agência Estado)

'Não cabe inflacionar os preços da economia'
Brasília - Em carta ao ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, justificou que a inflação oficial do ano passado ficou abaixo do piso da meta principalmente por conta da forte queda no preço dos alimentos. No texto, divulgado nesta quarta-feira (10), Goldfajn afirma que o choque dos alimentos representou 83,9% do desvio do IPCA verificado em 2017,que foi de 2,95%, em relação ao piso da meta para o ano, de 3%.O objetivo para 2017 era de 4,5%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima e para baixo.
O texto lembrou que a queda de preços do grupo "alimentação no domicílio" foi de 4,85% no ano passado, a maior deflação da série histórica do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), iniciada em 1989. Se esse grupo for excluído dos dados, a inflação chegaria a 4,54%, "valor muito próximo à meta de inflação para 2017". "O comportamento dos preços de alimentos refletiu, preponderantemente, as condições de oferta, que permitiram níveis recordes de produção agrícola", afirma Goldfajn na carta.
O presidente do BC explica que a autoridade monetária não reagiu a essa redução com elevação de juros porque não cabe ao banco inflacionar os preços sobre os quais têm mais controle para controlar choque no preço de alimentos. "O Banco Central do Brasil (BC) seguiu os bons princípios no gerenciamento da política monetária e não reagiu ao impacto primário do choque. Não cabe inflacionar os preços da economia sobre os quais a política monetária tem mais controle para compensar choques nos preços de alimentos". (Maeli Prado/Folhapress)

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