Brasília - O relatório de inflação divulgado ontem pelo Banco Central (BC) já aponta para uma variação do IPCA - Índice de Preços ao Consumidor Amplo, usado como parâmetro pelo governo - de 5,6% em 2005. Esse valor é superior não só ao centro da meta do ano que vem, fixado em 4,5%, mas também ao novo alvo, de 5,1%, que os diretores do BC vem perseguindo. Como o cenário projetado pelo BC leva em conta a taxa básica de juros em 16,25%, os agentes econômicos já estão interpretando o dado como a confirmação de que novos aumentos de juros serão inevitáveis, principalmente diante do nível de retomada da economia, que fez o BC elevar de 3,5% para 4,4% a estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto PIB este ano e reforçou as preocupações com recomposição de margens de lucro pelas empresas.
Nos cálculos do BC, esse ambiente de maior crescimento econômico, aliado à piora nas expectativas de inflação das empresas e de analistas e à lentidão no aumento da capacidade produtiva, fez com que o IPCA projetado para o final deste ano subisse de 6,4% para 7,2%. Se esse valor se confirmar, o BC encerrará 2004 com inflação próxima ao teto de 8% estabelecido para o ano. Mas, ainda assim, será possível manter um comportamento de queda, já que a inflação no ano passado foi de 9,3%.
Com a proximidade do fim do ano, a atenção do BC se concentra na inflação de 2005, que será mais influenciada pela taxa de juros estabelecida agora. No entanto, o resultado do IPCA em 2004 também tem impacto indireto na trajetória de 2005, na medida em que alguns preços são corrigidos com base na inflação passada e em que maiores pressões inflacionárias podem levar os agentes a acreditarem em novas altas, provocando reajustes preventivos de preços.
Apesar de o IPCA ter demonstrado certa acomodação depois da alta verificada em julho, o BC aposta em mais pressões nos próximos meses. Segundo o diretor de Política Econômica, Eduardo Loyo, há riscos de que aumentos registrados no atacado sejam repassados para os preços ao consumidor. ''A inflação teve uma aceleração em maio, junho e julho por força dos preços administrados, como eletricidade, telefonia e ônibus. Esse impulso teve acomodação em agosto, mas os núcleos permanecem elevados'', ressaltou Loyo.
Segundo ele, o BC está monitorando de perto a alta verificada nos preços industriais no atacado. A preocupação é que parte desse aumento levar a altas generalizadas aos consumidores. ''Por isso, prevemos pressão no IPCA nos próximos meses'', explicou. Historicamente, 42% da variação registrada nos preços da indústria é transferida para os consumidores. Como os valores praticados pelo setor industrial respondem por 36% do IPCA, a possibilidade de contaminação da inflação é alta.
O BC já anunciou que será menos tolerante com choques que ameacem a inflação daqui para frente. ''Caso tenhamos choque maiores, vamos precisar ser menos tolerantes'', reafirmou Loyo.

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