Inércia inflacionária volta a ameaçar
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de junho de 2008
Márcia De Chiara<br>Agência Estado 
A disparada dos índices de custo de vida traz de volta a ameaça da inércia inflacionária. Esse mecanismo de aumentar os preços tendo como base a inflação passada se propaga por meio de contratos que prevêem cláusulas de indexação ou pelo sentimento dos próprios empresários e trabalhadores que querem manter o faturamento e o salário, respectivamente, diante do ajuste de preços relativos que o aumento da inflação provoca.
Estamos hoje num estado de pré-inércia inflacionária que tem de ser combatido. É de se esperar que esse ciclo ganhe mais força com as negociações salariais, afirma o coordenador de Análises Econômicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Salomão Quadros. Ele lembra que o próprio governo acaba de conceder um aumento de 8% para o benefício do Bolsa-Família, que supera em muito a inflação de 5,58% acumulada nos últimos 12 meses até maio, pelo Índice Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). O Bolsa-Família sozinho não é inflacionário, pondera o coordenador. Mas ele lembra que as políticas fiscal e monetária do governo têm de estar afinadas para conter a propagação da inflação.
Em 2003, depois do choque inflacionário de 2002, a economia passou por um período de inércia nos preços, cujos efeitos de realimentação da inflação se mantiveram por quase dois anos, destaca Quadros. Agora, a economia estaria, segundo ele, passando por situação parecida, mas com intensidade muito menor porque o ciclo mal começou e, por isso, é mais fácil combatê-lo.
De toda forma, uma parte desse repasse automático da inflação passada para os preços atuais é líquido e certo no caso das tarifas públicas que levam em conta índices passados, como IPCA ou o Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), para determinar os reajustes.
O IGP-M acumula alta em 12 meses até maio de 11,53% e até junho de 13,44%, maior variação desde outubro de 2003. Esse índice é referência de reajustes anuais de tarifas, como o pedágio, que sobe nas estradas paulistas 11,53% no dia 1º. O aumento da energia elétrica, que leva em conta o IGP-M, será foco de pressão inflacionária importante em São Paulo, em julho e agosto, assim como a telefonia, lembra Quadros.
Entre os preços livres, o quadro não é muito diferente. Aluguéis reajustados com base no IGP-M e planos de saúde são exemplos de serviços livres carregados da inflação passada.Quanto maior a inflação, maior o impacto da inércia, afirma Marcela Prada, economista da Tendências.
Ele diz que cada 1% de variação dos preços livres carrega 0,34 ponto porcentual de inflação para o período seguinte, que é medida da inércia inflacionária, segundo estudos da consultoria. Até o primeiro trimestre, a inércia era estável, mas, com a alta da inflação, a tendência é de que aumente, diz.


