O racionamento de energia será um ingrediente a mais no custo do pãozinho francês. Cálculos do setor moageiro de trigo estimam que o impacto do racionamento no preço da farinha destinada à produção de pães poderá chegar a 5%. Com a redução de 15% no consumo de energia imposta pelo governo à indústria alimentícia, os moinhos prevêem uma queda de 13% na produção, o que provocará o encarecimento de todos os produtos derivados de trigo. Isso significa que, além do pãozinho, os biscoitos e as massas chegarão mais caros à mesa dos brasileiros.
No comando de seis moinhos distribuídos por três regiões do País, o empresário Amarílio Macêdo, presidente do grupo J. Macêdo, que ocupa o segundo lugar na moagem de trigo no Brasil, explica que o setor moageiro é de fluxo contínuo, ou seja, trabalha 24 horas, usa energia em 100% da sua produção e utiliza pouca mão-de-obra. Obrigados a desacelerar a produção, ele disse que os moinhos não deverão demitir pessoal, mas terão ‘‘um aumento de custo significativo e este aumento chegará ao pãozinho’’.
O presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Trigo (Abitrigo), Roland Guth, do moinho Carlos Guth, do Paraná, afirmou que, até agora, não foi possível fazer uma avaliação mais precisa de todos os efeitos do racionamento no setor. Mas admite que o preço do pãozinho poderá ser afetado com o racionamento de energia. Segundo Guth, os moinhos já cogitam comprar energia no Mercado Atacadista de Energia (Mae), mas ressalta que isso poderá pressionar ainda mais os preços.
Símbolo do Plano Real, o pãozinho francês tem sido um dos produtos mais afetados pela maiores crises do governo Fernando Henrique Cardoso.
Como o trigo é considerado uma commodity, o seu preço é cotado em dólar. O primeiro grande impacto no preço do produto veio com a desvalorização cambial de 1999. Somente este ano, o preço da tonelada de trigo saltou de US$ 99 para US$ 137.
Um efeito que, aliado à desvalorização cambial dos últimos meses, significa um aumento de custos em torno de 70%.
De acordo com Renato Garcez, diretor de J. Macêdo, os moinhos ainda não concluíram o processo de repasse destes custos para os preços e já enfrentam outro problema com o novo aumento de custos gerado pela crise de energia. Segundo Amarílio Macêdo, a lucratividade do setor é bastante comprimida, o que impede que a elevação dos custos seja absorvida pelos moinhos.

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