Indústrias contabilizam escalada nas vendas de álcool em gel
Quatro meses após o início da pandemia no país, consumo do produto começa a se estabilizar, mas fabricantes ainda colhem os frutos do aumento nas vendas; e-commerce registrou alta de quase 5.000%
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sexta-feira, 17 de julho de 2020
Quatro meses após o início da pandemia no país, consumo do produto começa a se estabilizar, mas fabricantes ainda colhem os frutos do aumento nas vendas; e-commerce registrou alta de quase 5.000%
Simoni Saris - Grupo Folha 
No início da pandemia do novo coronavírus no Brasil, o álcool em gel tornou-se um dos itens mais consumidos no país. Estudo realizado pelo movimento Compre & Confie, empresa de inteligência de mercado voltada ao e-commerce, as vendas on-line do produto cresceram 4.700% em fevereiro e março deste ano na comparação com o mesmo bimestre de 2019. Em poucos dias, estoques do produto se esgotaram nas lojas físicas e virtuais, fazendo o preço explodir. Quatro meses depois, o consumo, assim como os preços, se estabilizou, mas os fabricantes ainda contabilizam o arranque nas vendas.

A produção do desinfetante movimentou e aqueceu toda a cadeia que vai desde os fornecedores de matéria-prima até a rede de distribuição. Em uma fábrica do Norte Pioneiro do Estado, o volume produzido entre março e junho deste ano cresceu 555% em relação a igual período do ano passado.
A Palmindaya Cosméticos, em Santa Mariana, já produzia álcool em gel desde 2010, mas neste ano o item ganhou significativas posições no ranking de vendas e produção da empresa, ocupando hoje o terceiro lugar, o correspondente a 25% do total das vendas. “Para atender esse aumento da demanda foi necessária a inclusão de uma nova linha de envase, com aquisição de novos equipamentos, além do trabalho aos sábados e horas extras”, disse a química responsável pela empresa, Renata Castanho Moreira. Para ampliar a produção, também houve o remanejamento de funcionários.
A rede de distribuição da fábrica se estende para além do Paraná, chegando aos consumidores finais em Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Acre e Rondônia.
Em Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, a empresa de produtos saneantes Nano4you incluiu o álcool em gel no seu portfólio depois que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) publicou, em março, uma resolução autorizando empresas de outros setores a fabricarem o produto para atender a alta demanda do mercado nacional em regime de urgência. “Quando chegou a crise da Covid-19, o mercado dos nossos produtos reduziu 40% e, em 18 dias, começamos a produzir álcool em gel, líquido, pump, lenços umedecidos, aerossol. Isso nos ajudou a incrementar o faturamento”, contou o CEO da empresa, Rodrigo de Matos.
Enquanto muitos empregadores dispensaram seus funcionários em razão da crise sanitária, a Nano4you manteve os 300 trabalhadores fixos e criou outras 110 vagas indiretas temporárias para ampliar a distribuição. “Foram 60 dias intensos de operação”, disse o CEO. Os 12 produtos do portfólio da empresa que levam álcool 70% em sua fórmula chegam aos estados das regiões Sul e Sudeste, além de Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
O aumento da produção nas fábricas especializadas e a entrada de novas empresas no segmento trouxeram alguns problemas imediatos, como a falta do carbômero, espessante que transforma o álcool líquido em gel e o torna menos inflamável. A saída foi procurar substitutos no mercado. “Achamos o biogel, fizemos uma compra grande, estocamos bastante produto”, comentou Matos.
“O carbômero sumiu do mercado mundial e quando reapareceu, custava o dobro do preço em relação a 2019 e início de 2020. Outra dificuldade também foi a aquisição dos componentes das embalagens, como as válvulas conhecidas como bico de pato, o que refletiu no aumento de 15% no preço do produto final”, destacou Moreira, da Palmindaya.
No auge da demanda pelo produto, a Nano4you chegou a produzir 400 toneladas por semana de álcool em gel. Hoje, com a estabilização do mercado, a produção é de 40 toneladas por mês. O preço também baixou. O litro, que saía das gôndolas do varejo a R$ 24, hoje sai por cerca de R$ 9 e a tendência é continuar caindo. “Agora estamos em um segundo momento do álcool em gel, que está virando um ‘mico’ para o mercado. A resolução ampliou o direito de produzir sem ter o registro, mas os produtos têm validade de seis meses. O ciclo comercial desse álcool autorizado pela Anvisa é ruim. Mas para nós, vai virar uma linha permanente, com a oferta do produto em vários formatos. Estamos registrando a linha inteira na Anvisa”, disse Matos.
A Nano4you também exporta sua produção para países do Mercosul e Estados Unidos. “A gente criou um portfólio que não estava no nosso radar, de higienização, agora vamos conseguir licença para cosméticos, higienização de pele. Vai haver uma ampliação da fábrica. Tudo por conta da Covid-19. Foi uma oportunidade que surgiu, mas também por estarmos na hora certa, com capacidade de investimento e uma boa carteira de clientes no Brasil e no exterior”, disse o CEO.
Hoje, as vendas da linha de produtos à base de álcool 70% correspondem a 45% dos lucros da empresa. “A gente aposta nesse segmento porque isso não vai mudar. O novo coronavírus é o primeiro de outros que virão, infelizmente, e as pessoas vão mudar seus hábitos de higienização.”
Para usinas e fábricas de embalagens, momento é de amenizar perdas
Para as usinas produtoras de etanol, a alta repentina no consumo de álcool em gel não foi suficiente para ajudar a reduzir os prejuízos que a pandemia trouxe para o setor. Em março, houve queda de 14% nas vendas de combustíveis e a redução se acentuou em abril, com retração de 33,63% em relação ao mesmo mês de 2019, segundo dados da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis). O consumo de 1,2 bilhão de litros de etanol hidratado carburante, aquele que vai para as bombas dos postos de combustíveis, foi o menor desde abril de 2017.
Dados da Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar) referentes à safra 2020/2021, apontam 30% de queda na comercialização de etanol pelas unidades produtoras em abril. Em junho, o resultado negativo se manteve, mas em nível menor, com 11,43% de baixa, o equivalente a 2,40 bilhões de litros do produto. A Unica é uma entidade representativa das principais unidades produtoras de açúcar, etanol e bioeletricidade da região Centro-Sul do Brasil.
Apesar da retração no comércio de etanol, as vendas no mercado interno de etanol outros fins, a principal matéria-prima para a produção de álcool em gel, continua aquecida, com alta de 40% em junho, totalizando 118,25 milhões de litros comercializados.
As usinas e a Alcopar (Associação dos Produtores de Bioenergia do Estado do Paraná) são reticentes para falar sobre números. Informalmente, os produtores afirmam que apesar do crescimento no volume de vendas do etanol outros fins, esse aquecimento do mercado é irrelevante e não foi o bastante para recuperar as perdas ocasionadas pela queda no consumo de combustíveis.
O mesmo aconteceu com o setor de embalagens, afirma o Simpep (Sindicato da Indústria de Material Plástico do Estado do Paraná). A pandemia aumentou a demanda por embalagens para envase do álcool em gel, água mineral e fast food, mas esse crescimento não reverteu os cerca de 5% de perdas do setor como um todo no primeiro semestre, agravadas ainda mais pela alta do dólar. “O setor de embalagens está sofrendo violentamente com a valorização do dólar diante do real. Estamos tendo aumentos consecutivos no setor de polietileno, que nos últimos dois meses teve alta de 16% em relação a janeiro”, disse o presidente da entidade, Dirceu Galléas.


