Ariel Palacios
Agência Estado
De Buenos Aires
O presidente Carlos Menem expôs ontem uma dúvida que se constituiu em um duro alerta à União Industrial Argentina (UIA): ‘‘Se o Mercosul terminar, não sei onde vamos vender grande parte de nossa produção’’. O alerta é na verdade um recado, que poderia ser traduzido como ‘‘deixem de pressionar. Fomos longe demais nas medidas protecionistas contra o Brasil e agora temos que nos contentar com o que for possível na reunião de Montevidéu’’. A cúpula entre diplomatas e funcionários dos ministérios da Fazenda dos dois países será realizada na quinta e sexta-feira na capital uruguaia.
‘‘Menem foi ao Brasil defender a indústria brasileira’’. Esta expressão tornou-se comum nos últimos dias em Buenos Aires no meio empresarial, para referir-se ao que está sendo considerado com a ‘‘pouca defesa da indústria nacional’’.
Em conversa com integrantes do governo, o secretário-geral da UIA, Ignacio De Mendiguren, ironizou: ‘‘Rapazes, não nos ajudem mais’’. O empresário admitiu inveja de seus colegas no Brasil: ‘‘Como gostaria ter funcionários de governo como os brasileiros, que demonstraram explicitamente que estão dispostos a tomar todas as medidas necessárias para ter um país produtivo’’.
Mendiguren também criticou o governo brasileiro, ao afirmar que ‘‘eles exageraram nas reações às medidas das salvaguardas argentinas, porque, de fato, não há dano direto contra as importações com origem na indústria têxtil’’.
Durante o fim de semana, o vice-presidente da UIA, Alberto Álvarez Gaiani, disparou suas acusações direto ao Itamaraty, em um tom fora de moda, sustentando que o chanceler Luiz Felipe Lampréia sofre de ‘‘soberba imperialista’’. O ex-vice-ministro da Economia, Eduardo Curia, disse à Agência Estado que o poder de pressão da UIA atualmente é ‘‘relativo’’. Curia considera que ‘‘a própria UIA é culpada deste relativo peso’’ e citou o caso da decisão - já anulada - de aplicar salvaguardas em massa: ‘‘Foi uma proposta de escassas possibilidades de ser atendida’’, disse.
Um relatório da Secretaria de Indústria e Comércio argentina, divulgado ontem, indica que metade das importações denunciadas por ‘‘práticas desleais’’ na Argentina são provenientes do Brasil. Segundo o relatório, de um total de US$ 288 milhões envolvidos nas denúncias por práticas de dumping e subsídios, US$ 139,7 milhões são referentes ao Brasil, ou 48,4% das investigações. O segundo colocado é a China, com produtos envolvendo US$ 53 milhões, e constituindo 18,5% das investigações. O relatório será levado à reunião de Montevidéu pelo governo argentino.

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