Indústria teve poucos benefícios com o Real
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quarta-feira, 29 de setembro de 2004
Andréa Lombardo<br> Equipe da Folha 
Curitiba - O desempenho da indústria paranaense foi fraco nos dez anos de Plano Real, apesar do crescimento de 21,92% na produção, entre 1994 e 2003, ter ficado um pouco acima da média nacional de 17,87%. Já o nível de emprego, entre janeiro de 1994 e agosto de 2004, colocou o Paraná na liderança entre os demais estados, registrando crescimento de 62%, enquanto a média brasileira no mesmo período ficou em 15%.
Os números foram apresentados, ontem, pelo economista do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese), Cid Cordeiro, em um seminário promovido pela Associação Comercial do Paraná (ACP), em Curitiba, que serviu para discutir os resultados do setor industrial a partir da implantação da nova política monetária.
Segundo Cordeiro, o desempenho da produção industrial foi puxado pelos segmentos de máquinas e equipamentos, madeira, mobiliário e borracha. No período inicial do Plano Real até 1996, o câmbio valorizado, a inflação em queda e a renda crescendo criaram um quadro favorável para o setor. ''A indústria assimilou bem a abertura das exportações. O problema foi depois. Enfrentar a concorrência externa com a economia crescendo pouco'', observou.
Cordeiro destacou que apesar do crescimento do número de empregos ter sido significativo 182 mil novos postos de trabalho , os setores que mais empregaram foram os tradicionais alimentação, vestuário, mobiliário , onde a remuneração é baixa. Em função desse perfil, o Paraná registrou salário médio menor que a média brasileira. Em 1994, a diferença salarial era de -28% e, em 2002, de -22%, exemplificou o economista.
Mais positivo - Para o assessor econômico da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), Roberto Zurcher, o Plano Real teve um reflexo mais positivo para o comércio. Segundo ele, o número de consultas ao Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) cresceu 130%, refletindo o aumento no consumo, e a inadimplência caiu de 6% para 1%. Mas, para a indústria o panorama não foi tão favorável, já que não tinha ''sobra de caixa'' para investir.
Zurcher ressaltou que o setor industrial sofreu fortes impactos nos dez anos do Plano Real, que resultaram em significativas quedas nas vendas. Ele citou o aumento na taxa de juros (1995), a crise russa (1996), a crise asiática (1997), a flexibilização do câmbio (1999), os ataques terroristas aos Estados Unidos (2001), o ''fantasma'' das eleições (2002) e, por último, as restrições ao crédito (2003).
Segundo Zurcher, este ano, o setor começou a dar sinais de recuperação, mas ainda é difícil ''ter uma visão clara do futuro''. Entre 2003 e 2004, a indústria se descapitalizou situação agravada pela queda de 12% no faturamento. Atualmente, as empresas estão com sua capacidade de produção esgotada e a falta de crédito continua sendo o empecilho para novos investimentos.
Arranjo produtivo - O economista do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), Gilmar Lourenço Mendes, defende a implantação de um novo arranjo produtivo, em parceria com universidades, para alavancar a produção industrial em outras regiões, já que hoje a Região Metropolitana de Curitiba concentra 70% do Valor Adicionado Fiscal (VAF) do Estado.
Mendes também é a favor da otimização da energia, das comunicações e do transporte. Para ele, este último ainda é deficitário e sugeriu se não seria o caso de estudar a devolução para o governo federal dos 2 mil quilômetros de rodovias do Anel de Integração.


