Indústria teme pressão inflacionária
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quarta-feira, 04 de agosto de 2004
Sérgio Gobetti <br>Agência Estado 
Brasília - O reaquecimento da economia no primeiro semestre do ano trouxe uma boa e uma má notícia, de acordo com os dados divulgados ontem pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). O crescimento real de 16,79% nas vendas da indústria em comparação com igual período de 2003 sinaliza a possibilidade de o setor ser o carro-chefe do PIB neste ano, mas o recorde registrado em junho no nível de utilização da capacidade instalada das empresas (83,3%) volta a despertar o risco de pressões inflacionárias caso novos investimentos não sejam realizados a curto prazo.
O nível de utilização da capacidade instalada corresponde à proporção do parque produtivo das empresas que está sendo empregada na produção. Normalmente, o limite máximo com que a economia consegue operar, em média, é 88%. Quanto mais próximo desse limite, maiores são as pressões por aumento dos preços, já que a demanda começa a superar a oferta.
O relatório de Indicadores Industriais da CNI aponta que o crescimento da atividade industrial, com o fechamento dos dados de junho, só é comparável aos primeiros anos do Plano Real, a partir de 1994, e aos índices alcançados no biênio 2000/2001. Os 83,3% de junho são o maior nível de utilização da capacidade produtiva verificado pela CNI desde que a entidade começou a calcular esse indicador, em janeiro de 1992. O índice divulgado é apenas uma média: em alguns segmentos ele continua abaixo de 80%, enquanto em outros (como a siderurgia) já supera os 90%.
''Há áreas em que esse problema impõe limites físicos para a manutenção da produção, mas não identificamos uma pressão generalizada'', disse o presidente da CNI, Armando Monteiro Neto, ao divulgar os números animadores das vendas do primeiro semestre. Segundo ele, existem decisões de investimento que já estão tomadas e o próprio reaquecimento da economia deve incentivar outras empresas a seguirem o mesmo caminho, reinvertendo seus lucros na ampliação da produção. ''Mas é importante que o governo dê um sinalização de desoneração dos investimentos. Estamos na expectativa de um novo movimento de redução do IPI para bens de capital'', afirmou Neto.
O presidente da CNI disse que, apesar das pressões ''localizadas'' sobre os preços, não vê razão para o Banco Central elevar novamente a taxa de juros, como ameaçado na último ata do Conselho de Política Monetária (Copom). No documento, o BC manifesta explicitamente preocupação com o impacto inflacionário que o esgotamento da capacidade produtiva em alguns setores pode vir a provocar.
''O aumento da Selic é um movimento indesejável, porque a taxa que está aí já é elevada e o BC tem uma margem. A melhor solução (contra a inflação) é pelo aumento da oferta e não pela contenção da demanda'', disse Monteiro Neto, acrescentando que as pressões inflacionárias no setor de insumos também podem ser administradas com mais importações.
Em suas novas projeções, a CNI avalia que a produção industrial (excluindo construção civil) poderá crescer 6% em 2004. Além do crescimento das vendas (27,72% em junho e 16,79% no acumulado do ano, em comparação sempre com 2003), o nível de emprego também começa a crescer (1,15% no primeiro semestre), ao lado das horas trabalhadas (3,89%) e dos salários reais (7,79%).
''Não é euforia. Os números falam por si só. Há uma constelação de dados positivos'', afirmou o presidente da CNI, destacando que o cenário de 2004 está consolidado, e que o de 2005 em diante dependerá do ritmo de avanços na agenda microeconômica do governo.


