O presidente da Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica (GCE), ministro Pedro Parente, admitiu ontem, em Curitiba, que, caso haja reajuste nas tarifas, o setor industrial deverá absorver os maiores porcentuais. ''Certamente tem que corrigir, pelo menos ao longo do tempo, a estrutura subsidiada na tarifa'', afirmou. ''Não é justo que se cobre de uma indústria preço inferior ao custo da energia, e isso está acontecendo.''
Ele não comentou os impactos inflacionários que uma medida dessas teria na economia, alegando preferir falar sobre ''decisões''. ''Essa questão está sendo discutida, mas não há decisão do governo sobre isso'', disse. ''Temos subsídios cruzados na estrutura e, qualquer discussão de reajuste de tarifas levará em conta isso, onerando muito menos aqueles que já pagam mais, fundamentalmente os consumidores residenciais, e em especial os de baixa renda.'' Antes de admitir os estudos sobre reajuste tarifário, o ministro afirmou que não o está defendendo.
''Defendo sempre a menor tarifa possível, mas a gente tem que tomar cuidado quando está falando em energia elétrica, pois se trabalharmos artificialmente para termos menor tarifa hoje, teremos tarifa muito maior no futuro'', ponderou.
''Não podemos trabalhar de forma pouco cuidadosa com o tema.'' Segundo ele, as distribuidoras têm razão quando dizem que estão assumindo os custos do racionamento e que não decorrem do risco de seu negócio. ''São custos que elas não têm o poder de gerenciar e que têm que ser repassados de alguma forma à tarifa'', afirmou o ministro.
''Precisamos olhar isso com muita atenção, porque a energia mais cara é a que não existe e, se não cuidarmos disso hoje, ela não existirá daqui a dois ou três anos.''
Térmicas O presidente da GCE reafirmou que o governo e as empresas térmicas que estão sendo construídas não vão esperar uma solução para o pleno funcionamento do Mercado Atacadista de Energia Elétrica (MAE). ''Vamos proporcionar mecanismos para que essas usinas comecem a funcionar sem aguardar o MAE operar'', afirmou Parente. A energia deverá ser comprada pela Companhia Brasileira de Energia Emergencial (CBEE).
O ministro considera ''extremamente complicado'' qualquer modificação no acordo entre Brasil e Paraguai, que levou à construção da Hidrelétrica Itaipu, para permitir que a venda da energia não esteja atrelada ao dólar. ''A hidrelétrica é regulada por um instrumento que, no mundo jurídico, só não é superado pela Constituição'', argumentou. ''Precisaria negociar com um país que tem suas questões'', acentuou. ''Poderia levar muito tempo, se é que seria de nosso interesse, e não temos essa convicção.''
Parente esteve em Curitiba participando de um encontro do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável, que formalizou ontem criação de sua Câmara Técnica de Energia, com a função de sugerir ações que envolvam sustentabilidade e energia. ''É a demonstração de que os empresários não devem ficar à mercê das autoridades governamentais para enfrentar os efeitos de uma crise energética, como esta que estamos atravessando'', disse o presidente do conselho, Fernando Almeida. ''Se ela não puder influenciar o governo e a sociedade não cumprirá seu papel.''

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