Indústria segue hábitos de alimentação saudável
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domingo, 04 de março de 2018
Mie Francine Chiba<br>Reportagem Local 

As vendas de alimentos e bebidas saudáveis e focados no bem-estar estão em crescimento no Brasil. No varejo, as vendas cresceram R$ 63,1 bilhões e R$ 29,5 bilhões, respectivamente, em 2017. Isso representa um crescimento médio anual de 8,4% e 12,2% entre 2012 e 2017. Os dados são da empresa de pesquisa de mercado Euromonitor International. Para os próximos cinco anos, a previsão é de crescimento médio anual de 9,9% na comercialização de alimentos e de 27,7% na de bebidas.
"Nos últimos anos, é impossível negar o crescente e amplo significado de 'saúde' na mente dos consumidores, que têm desenvolvido uma senso maior de si mesmos, de suas necessidades, gostos e especificidades um movimento que se reflete na maneira como eles compram alimentos e bebidas", avalia Angelica Salado, analista sênior de pesquisa na Euromonitor International. Segundo ela, os produtos que com teor reduzido de açúcar ou baixas calorias só perdem espaço para aqueles que possuem benefícios funcionais - livres de componentes que os consumidores consideram prejudiciais e de produção orgânica.
Assim, o chamado "junk food" começa a despertar menos interesse dos consumidores, embora ainda tenham espaço no mercado. "Com certeza a indústria de 'junk food' não deve acabar em médio prazo, pois ela ainda é altamente relevante para os consumidores existentes. Mas quando pensamos no futuro, essa indústria está inegavelmente ameaçada", destaca Salado.
Na sua visão, dois fatores podem explicar essa mudança: os consumidores estão reduzindo a frequência de compras desses produtos, então o crescimento da indústria de junk food desacelera consideravelmente; e o volume de consumidores entrantes nesse mercado está encolhendo intensivamente. "As crianças hoje estão muito mais concentradas nos novos padrões de consumo adotados pelos seus pais, especialmente quando falamos de hábitos de nutrição. No longo prazo, os consumidores existentes continuarão a migrar para opções mais saudáveis, enquanto essa nova geração de 'crianças orientadas à alimentação saudável' não irá mais substituir a força de consumo de junk food."
SEM GLÚTEN
Indústrias tradicionais de alimentos do Paraná estão "surfando" na onda de alimentos saudáveis e investem ainda mais nesse segmento de mercado. A Podium Alimentos, de derivados de mandioca de Tamboara (Noroeste), está tirando proveito da demanda por alimentos sem glúten, que têm sido vistos como uma alternativa mais saudável de alimentação. "É um segmento que está tendo impacto positivo. A mandioca está sendo reconhecida como um alimento que, além de funcional, é benéfico para a saúde", diz Ivo Pierin Junior, sócio-diretor da empresa. Segundo ele, o consumo da tapioca e do pão de queijo, por exemplo, tem crescido muito, culminando na fidelização do consumo. A mistura para pão de queijo é a especialidade da empresa.
A Podium tem cerca de 70 misturas no portfólio, alguns com foco no público que busca saúde. Exemplos são a mistura com redução de sódio, sem lactose ou multigrãos. "Nós intensificamos (o foco em alimentos saudáveis) e estamos procurando acelerar. Queremos aprofundar algumas pesquisas que já existem. Estamos detectando uma ampliação muito grande desse mercado. Achamos que o setor logo vai ocupar 30% do mercado de alimentos. Temos a intenção de crescer muito, principalmente nessa vertente", declara Pierin Junior.
Ele conta que, alguns anos atrás, a utilização da mandioca na indústria de papel e tecido representava cerca de 25% da operação da empresa. Agora, esse volume diminuiu para 10%, mas em compensação o consumo alimentício aumentou. De 2016 para 2017, o consumo de amido de mandioca cresceu mais de 20% no Brasil, afirma o sócio-diretor. Também aumentou a diversidade de produtos que utilizam essa matéria-prima, que ainda se tornaram mais bem elaborados. "Melhorou a oferta para o consumidor." Como resultado, a indústria cresceu 20% em faturamento e 10% em volume no ano passado.
Empresa aposta na oferta de orgânicos
Há 23 anos trabalhando com alimentos cozidos a vapor e embalados a vácuo, a Vapza, de Castro (Campos Gerais), agora investe também em alimentos orgânicos para atender a uma demanda cada vez maior por esse tipo de produto. O crescimento das vendas da nova linha é de 25% a 30% mês a mês, afirma Enrico Milani, diretor geral. "Detectamos que o orgânico seria uma tendência. Alimentos mais naturais, orgânicos, sem aditivos, já chamam a atenção lá fora e a busca por eles está se concretizando no Brasil agora."
A indústria utiliza tecnologia francesa para preservar os nutrientes dos alimentos e podem ser mantidos sem refrigeração até chegar à mesa do consumidor. "Todos os produtos são cozidos, esterilizados e não têm aditivos", completa Milani. Apesar de a companhia não ter apresentado crescimento nos últimos três anos devido ao momento difícil da economia, a expectativa a partir de 2018 é crescer 12% ao ano buscando inserir mais produtos com foco na saúde do consumidor, afirma o diretor. "O nosso foco é a saudabilidade. Produtos que, além de saudáveis, são naturais e práticos de preparar. Por enquanto, uma parcela pequena da população compra produtos orgânicos, mas com o tempo isso irá se tornar essencial para a empresa."
Velhos conhecidos do mercado despertam interesse
A imagem de marca exerce um importante papel no processo de decisão de compra de alimentos e bebidas saudáveis, afirma a analista da Euromonitor International, Angelica Salado. Os consumidores estão menos propensos a adquirir marcas que não conhecem ou que são "premium", mais caros, em momentos de incertezas econômicas. "Nesse sentido, para marcas que já são amplamente conhecidas pelos brasileiros, que despertam uma forte consciência de marca e lealdade e que ainda estão aptas a oferecer produtos diferenciados, a barreira é muito mais fácil de ser superada."
Até mesmo grandes multinacionais estão interessadas nessas marcas mais conhecidas dos brasileiros. Exemplos são a Coca-Cola, que adquiriu a Verde Campo e a marca de bebidas de soja AdeS; a Ambev, que adquiriu a sucos Do Bem; e a Unilever, que adquiriu a marca de produtos naturais e orgânicos Mãe Terra. Há casos notórios até no Estado, com a aquisição da Jasmine Alimentos pela japonesa Otsuka Farmacêutica, através da subsidiária Nutrition & Santé, em 2014. "O processo de aquisição de pequenos negócios focados em alimentos e bebidas saudáveis por grandes multinacionais é uma maneira rápida de participar nessa área de nicho, e mais fácil que começar uma marca nova do zero, à medida que essas companhias já têm marcas e imagens consolidadas."
Para Salado, esse movimento é uma importante evidência de que, em longo prazo, alimentos saudáveis serão um novo padrão no setor de alimentos. "Qualquer companhia de alimentos e bebidas que ainda não tem uma marca focada em saúde ou pelo menos um produto saudável no seu portfólio hoje está definitivamente atrás da curva."


