Indústria se prepara para ter um ano ímpar
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sábado, 29 de maio de 2004
Patrícia Campos Mello<br> Agência Estado 
São Paulo - A indústria de calçados Bical, de Birigui, no interior de São Paulo, acaba de projetar um crescimento fenomenal em suas exportações. Neste ano, a empresa vai vender mais que o dobro do ano passado, para 48 países nos cinco continentes. A boa notícia foi comemorada em Birigui, mas não é nenhuma surpresa. Surpreendente mesmo é o desempenho das vendas de calçados Bical aqui no Brasil. Depois de anos de resultados frustrantes, a empresa vai conseguir vender 10% a mais no mercado interno. E essa pode ser uma amostra do resultado da indústria de calçados em 2004. Segundo as entidades de classe, as exportações vão crescer 15%, diante de 7% no ano passado. E as vendas internas, que tiveram um aumento anêmico de 3% em 2003, vão subir 7%.
Assim como a indústria de calçados, muitos outros setores se preparam para um ano ímpar: exportações crescendo, enquanto as vendas domésticas finalmente se recuperam. Isso não acontecia desde 2000. Segundo previsões de economistas, setores como o automobilístico, têxtil, calçados e alimentos, que sofreram com a estagnação da economia, vão conseguir combinar o melhor dos dois mundos. As exportações continuam crescendo, surpreendendo até os mais otimistas. Enquanto isso, como mostrou o resultado do Produto Interno Bruto do primeiro trimestre, com crescimento de 2,7% diante do mesmo período em 2003, a demanda interna começa a se recuperar. ''Como esses setores ainda têm capacidade ociosa, vão conseguir abastecer tanto o mercado externo como o interno'', diz Carlos Urso, economista da LCA Consultores.
Já os setores de bens intermediários, como a indústria siderúrgica, de celulose, ferro e madeira compensada, devem sofrer uma desaceleração nas exportações. ''Essas indústrias tiveram um reaquecimento já no ano passado, porque são essencialmente exportadoras. Como resultado, estão próximas do limite de capacidade e vão ter de optar entre abastecer o mercado doméstico ou continuar aumentando as exportações.''
Mas a maior parte dos setores vai conciliar exportações em alta com vendas domésticas crescentes. A Karsten, por exemplo, está lançando uma linha de roupas de cama, apostando num crescimento de vendas no Brasil. João Karsten Neto, vice-presidente da empresa, prevê um crescimento de vendas de 10% a 15%, enquanto as exportações devem manter o ritmo de 10%, em dólar. ''Daqui a pouco vou precisar investir em capacidade. Mas, por enquanto, podemos expandir a produção'', diz Karsten.
''O ano passado foi muito ruim, tivemos queda de 6% em volume. Neste ano, pelo menos estabilizou'', declarou José Armando Coelho Silva, assessor da diretoria da Fame, fábrica de aparelhos elétricos. A Fame vem aumentando as exportações para contornar a estagnação do mercado interno. A empresa exporta chuveiros para América do Sul, Caribe, Índia, África e, desde o ano passado, para a China.


