Indústria quer empregado inexperiente
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sexta-feira, 10 de julho de 1998
Agência Estado 
As montadoras que estão se instalando no Paraná procuram metalúrgicos sem experiência. O candidato com maiores chances de conquistar uma das cerca de 12 mil vagas já abertas é aquele que nunca passou por uma fábrica de carros. Com projetos de produção totalmente diferentes do que o ABC Paulista ou outras regiões do País já testaram, a indústria automobilística resolveu formar sua própria mão-de-obra do Paraná. E faz questão, sobretudo, de que seu trabalhador não carregue nenhum tipo de vício dos modelos tradicionais.
Não basta o profissional trazer um relatório comprovando horas de trabalho em determinada função porque isso não é o mais importante para nós, afirma Agne Cristina Machado, coordenadora de Recursos Humanos da Tritec, fabricante de motores que nasceu da fusão entre Chrysler e BMW.
Assim como as demais empresas que estão formando o pólo automotivo da Região Metropolitana de Curitiba, a Tritec quer ter o máximo de funcionários que morem na cidade onde vai instalar a fábrica daqui a dois anos - Campo Largo. Somente quando esgotarmos os recursos disponíveis dessa cidade é que buscaremos profissionais de cidades próximas, como Curitiba, destaca.
O que a Tritec procura para sua futura fábrica é o mesmo que a Chrysler - já em operação - buscou. E coincide com a política de Recursos Humanos da Renault e Volkswagen/Audi, que inauguram suas fábricas entre o final deste ano e o início do próximo.
Esta coincidência de estratégia provocou uma inédita união entre as montadoras para criar um centro de formação de mão-de-obra no Paraná. O setor está formando seus futuros empregados num centro automotivo instalado dentro do Senai. Trata-se de uma escola especialmente idealizada para atender às montadoras.
O ensino é tão personalizado que a sala de aula tem três linhas de montagem - uma da Renault, outra da Volkswagen/Audi e uma terceira da Chrysler. O centro automotivo do Senai surgiu repentinamente, numa coincidência de encontros entre os executivos do setor.
Durante uma reunião da Renault, num hotel de Curitiba, os franceses tentavam achar a melhor forma de buscar os recursos humanos para a sua primeira fábrica brasileira. Um executivo da Volkswagen, o gerente de Recursos Humanos Adilson Zanoni, decidiu participar do encontro. E contou a experiência da Volks com o Senai em São Bernardo do Campo (SP). Os franceses notaram a seriedade da entidade sobre a qual eles mal haviam ouvido falar. Em São Bernardo, são tradicionais os convênios entre Volkswagen e Senai.
Assim surgiu o centro automotivo. E é lá que todas as montadoras e fabricantes de autopeças estão buscando seus profissionais. Para ingressar no centro o aluno tem que ter algumas qualificações. A principal é o segundo grau completo. No processo de seleção nas montadoras, ganha a vaga aquele que demonstrar maior identificação com o trabalho em grupo. Já virou moda no Paraná o chamado trabalho em times. Surgiu o team leader, expressão já habitual na indústria automotiva dos Estados Unidos, que copiou a idéia dos japoneses.
Boa parte dos novos metalúrgicos da indústria automobilística já viajou para outros países antes mesmo de começar a trabalhar no Brasil. As montadoras já enviaram dezenas de novos contratados para França, Estados Unidos, Alemanha e países da América Latina para que seus aprendizes saibam com exatidão como devem fazer veículos no Brasil.
São coisas da globalização. Os carros têm de ter a mesma qualidade em todas as partes do planeta. Os viajantes desta nova geração são os team leaders - ou os supervisores de grupo. Ou seja, os trabalhadores do chamado chão de fábrica, e não apenas os engenheiros, viajam para as matrizes.
A habilidade para aprender e a disposição para trabalhar em grupo é o mais importante nesse processo, afirma o gerente da fábrica da Chrysler, David Elliott. Eles aprendem a fazer um trabalho guiado por eles mesmos, destaca.
A Chrysler selecionou 30, entre 1.300 candidatos, para acompanhar como a empresa monta seus veículos na Argentina, México e Venezuela, além da própria fábrica que já produz a picape Dakota em Michigan, nos Estados Unidos. No domingo passado mais um grupo de contratados da Renault voltou da França. A Tritec se prepara para mandar a primeira turma para os Estados Unidos no final do ano e Volkswagen/Audi já começa a montar protótipos de carros com metalúrgicos que conheceram a linha do Audi A3 na Alemanha.
Teremos dois produtos totalmente novos, e mundiais, justifica Zanini, da Volks. Daí a importância do treinamento apurado. Quando se faz uma fábrica nova a experiência nem sempre é importante, argumenta Zanini, que foi deslocado do ABC para São José dos Pinhais (PR). Ele diz que a relação com empregados está mudando.
A Volkswagen acumula no Paraná 10 mil currículos - quantidade três vezes maior do que o número de empregados que pretende contratar. Mas parece, como as outras montadoras, dar pouca importância para currículos. Queremos uma mão-de-obra sem vícios, diz Zanoni. A idade média dos metalúrgicos do Paraná oscila em torno de 23 anos. Naquela região também foram empregadas mais mulheres. A Chrysler ostenta um dos maiores índices, 19%, de participação de mão-de-obra feminina.
Mas os salários do Paraná também são mais baixos. O ganho inicial - R$ 550 - é 30% menor que o do metalúrgico paulista. A média salarial dos funcionários das fábricas de automóveis de São Paulo é ainda maior. Em algumas bases chega a R$ 1.800.


