Indústria prepara rodada de aumentos
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sábado, 04 de setembro de 2004
Márcia de Chiara e Alberto Komatsu<br> Agência Estado 
São Paulo - Uma nova rodada de aumentos de preços na indústria e no comércio ganhou força na virada deste mês, favorecida pelo aquecimento do consumo das famílias brasileiras, que cresceu no segundo trimestre 5% ante o mesmo período do ano passado e foi o melhor resultado desde 1997.
Os aumentos, antes restritos às matérias-primas básicas, como aço, papelão e resinas plásticas, por exemplo, começam a se espalhar pelas etapas seguintes da cadeia de produção, pressionando as indústrias de outros bens, como a de eletrônicos, eletrodomésticos, eletroportáteis, brinquedos, alimentos industrializados, embalagens plásticas, entre outros. O impacto no bolso do consumidor está a caminho e deve ser sentido nos próximos meses, exatamente quando entra mais dinheiro em circulação na economia em razão dos reajustes salariais de grandes categorias de trabalhadores, concentrados a partir de setembro, e do pagamento do 13.º salário no último trimestre do ano, assinalam os economistas.
''Estamos com forte necessidade de repasse (de preços) nos produtos, entre 10% e 15%. Isso tem de acontecer até o fim deste ano'', diz o diretor de Vendas e Marketing da Multibrás, controladora das marcas Brastemp e Consul, Ruy de Campos. O presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros), Paulo Saab, concorda com a estimativa. ''O momento é favorável (para o repasse de preços), pois há necessidade e o mercado comporta. Quando é preciso impor o aumento e o mercado não suporta, o resultado é a redução de produção.''
A Philips, por exemplo, uma das gigantes do setor eletrônico, iniciou no mês passado negociações com o varejo para reajustar entre 7% e 9% os preços de seus produtos por conta da Cofins. ''Estamos finalizando entendimentos com uma solução positiva para ambos os lados'', diz o vice-presidente de Eletrônicos de Consumo, Paulo Ferraz. Segundo ele, as pressões por aumentos de preços vão do isopor às aparas de papelão que servem de calços para acondicionar os eletrônicos nas caixas. Ferraz diz não temer recuo nas vendas por conta do reajuste de preços. Ele observa que, como o parcelamento oferecido pelas lojas é longo, o aumento se diluirá e o impacto deve ser irrisório no valor da prestação.
Queda-de-braço - O aquecimento do consumo doméstico não só abriu espaço para os aumentos de preços como mudou o tom dos entendimentos entre as indústrias fornecedoras de insumos, os fabricantes de bens de consumo e as lojas. ''No segundo semestre de 2003, o tom era de negociação. Neste ano, é de imposição'', conta um executivo da indústria, que prefere não ser identificado.
O fato é que, na corrida das empresas para recompor as margens perdidas ao longo dos últimos meses, a queda-de-braço se acirrou. ''As negociações estão cada dia mais difíceis e beiram a ruptura'', diz o presidente da Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos, Synésio Baptista da Costa. Ele diz que o setor tem necessidade de reajustar em 16,5% as tabelas, e já aumentou entre 4% e 4,5% os preços este ano.
Inflação e juros - Economistas duvidam que essa nova rodada de aumentos de preços tenha potencial para provocar uma disparada da inflação a ponto de o Banco Central (BC) ter de aumentar os juros básicos, hoje em 16% ao ano. Ressaltam, porém, que a pressão maior por reajustes sinaliza que a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), prevista para fechar este ano, próxima do teto de 8%, também deve ficar, por enquanto, ao menos um ponto porcentual acima do centro da meta de 4,5% traçada para 2005, segundo previsões do mercado financeiro coletadas pelo BC.
''Tivemos choques de custos que tornaram irrealistas as metas de inflação'', afirma o economista-chefe da LCA Consultores, Luís Suzigan. Entre os choques de custos, ele aponta a desvalorização cambial de 2002 para 2003 e a disparada mundial dos preços de commodities básicas, como aço e o petróleo.
''Não vejo motivos para subir os juros porque a trajetória da inflação é descendente'', observa o coordenador de Análises Econômicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Salomão Quadros.


