Indústria pede limite para importações
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de dezembro de 1997
Rosangela Capozoli Agência Estado São Paulo 
O crescimento das importações de manteiga, leite em pó e de queijo está preocupando as indústrias de laticínios do País. Entidades ligadas ao setor, como a CNA, a Confederação Brasileira das Cooperativas de Laticínios (CBCL) e Associação Brasileira de Produtores de Leite encaminharam um documento ao governo reivindicando maior proteção à cadeia produtiva de laticínios.
O setor quer a redução do prazo de financiamento das importações de produtos lácteos para um período de 30 dias, enquanto não existirem linhas de crédito no Brasil compatíveis com os juros praticados no mercado internacional. Essas entidades reclamam do excesso de importações, principalmente dos países do Mercosul.
De janeiro a setembro deste ano o Brasil comprou no mercado externo 6.213 toneladas de manteiga, representando despesas de US$ 10.685.161.
A maior parte do produto é proveniente do Uruguai (4.315 toneladas), seguido da Argentina (898 t), Nova Zelândia (585 t), entre outros. Essas importações foram desnecessárias em função do aumento da produção nacional e da estagnação do consumo, afirma Carlos Humberto Carvalho, presidente do Conselho Nacional das Indústrias de Laticínios (Conil) e do Sindicato das Indústrias de Laticínios e Produtos Derivados. No segmento de queijos, caracterizado por um grande número de pequenas indústrias, também vem enfrentando forte concorrência dos importados, o que causou o fechamento de 25 empresas nos últimos dois anos. De janeiro a setembro o País importou 24.261 t de queijo, sendo que 9.181 t foram adquiridos na Argentina. No ano passado, foram importados 34 mil t de queijo e a previsão para este ano é chegar a 30 mil t. Os importadores de leite em pó, por exemplo, já ocupam mais de 20% do mercado doméstico, sendo que nas compras governamentais a participação fica acima de 70%. Nos primeiros nove meses deste ano o Brasil importou 114.037 t de leite em pó (US$ 227.990.713/FOB). O Conil afirma que as importações maciças desses laticínios (80% provenientes do Mercosul) ocorridas desde a implantação do Plano Real até setembro deste ano estão prejudicando as empresas brasileiras.
Segundo Humberto Carvalho, o setor de laticínios como um todo deverá fechar o ano com um faturamento de US$ 10 bilhões, empatando com 96. No ano passado foram produzidos 19 bilhões de litros de leite e a estimativa é chegar a 20 bilhões em 97. As vendas cresceram mas os preços reais caíram entre 15% e 20% do real para cá, devido à forte concorrência, afirma.
Exportações Segundo os empresários, o excesso de manteiga no mercado brasileiro e o alto volume de compras externas estão obrigando as indústrias a exportar esse produto por um preço mais baixo que o praticado no mercado interno. No final de outubro, o preço no mercado nacional estava em torno de US$ 2.000/t, mas as exportações foram fechadas a US$ 1.900. Foi mais vantajoso exportar que vender no mercado interno, onde os preços estão deprimidos, afirma Jacques Gontijo, presidente da Cooperativa Central dos Produtores Rurais de Minas Gerais.
Fabricante dos produtos Itambé, terceira no ranking no País, a cooperativa vendeu 500 toneladas de manteiga para a Rússia no final de outubro. De outubro até o final deste ano o Brasil estará colocando na Rússia mais de mil t de manteiga, afirma o presidente do Conil.
Essa exportação, portanto, deve render ao País receitas de US$ 1,9 bilhão, considerado um fato inédito, já que o setor de laticínios não tem tradição em vendas externas. Na década de 70, por exemplo, o Brasil fez uma permuta com a UE, trocando 5 mil toneladas de manteiga por 8 mil t de leite em pó.


