O pacote fiscal do governo já começa a produzir baixas nos planos de investimentos industriais. A Sharp do Brasil, fabricante de eletrônicos de consumo, pretendia disputar o mercado de linha branca (geladeiras, freezers e fogões), está reavaliando seu projeto, cujos estudos de viabilidade econômica ainda estão em curso, informou o presidente da empresa, Nemer Saliba.
Apanhadas no meio do caminho do planejamento para 98, boa parte das empresas ainda está digerindo as medidas anunciadas pelo governo na segunda-feira. Os investimentos, com exceção daqueles estratégicos, como é o caso do projeto da Fairway - maior fabricante de filamentos têxteis da América Latina -, devem permanecer na gaveta até que as empresas consigam digerir melhor o plano. A Fairway está investindo US$ 40 milhões em melhorias de produtividade para aumentar a fatia de sua produção destinada a aplicações industriais (como revestimentos internos de automóveis).
Depois do anúncio da Brahma, feito pelo seu presidente, Marcel Hermann Telles, suspendendo investimentos de US$ 300 milhões em modernização de fábricas, ontem foi a vez da Kaiser. Segundo o vice-presidente corporativo da cervejaria, Carlos Eduardo Jardim, sua companhia pretende avaliar o momento, de consumo em baixa de 1,7%, em outubro, para saber se serão mantidos os projetos de US$ 200 milhões para 98. ‘‘Se a queda do consumo for mantida em novembro e dezembro, não tenho dúvidas sobre o cancelamento dos investimentos’’, disse. A empresa constrói uma fábrica no Ceará e programa investir na modernização do seu parque industrial.
A Multibrás, dona das marcas Consul e Brastemp, ainda não avaliou totalmente o estrago do pacote econômico. No entanto, os investimentos para o próximo ano estão garantidos. O empresário Eugênio Staub, da Gradiente, disse que, dos US$ 60 milhões que projetara aplicar em seus negócios neste ano, apenas 10% ainda não foram injetados. ‘‘Vamos completar nosso plano’’, afirmou.
A Perdigão decidiu manter os US$ 300 milhões programados para Rio Verde (GO) em projeto de otimização de seu parque industrial, ainda em construção, previsto para ser concluído em 2001. ‘‘Estamos elaborando o planejamento global para 98’’, diz o diretor da empresa, Ricardo Menezes.
Staub, da Gradiente, acredita que as empresas terão de reavaliar o orçamento para 98. Em suas contas, os negócios do grupo - com exceção dos celulares e das antenas digitais para tevê - podem ter redução de 40%. O mercado de televisores, por exemplo, que tendia ultrapassar neste ano a venda de 8,5 milhões de unidades verificada em 96, pode ficar em 7,5 milhões. Para 98, a estimativa do setor é de que caia para 6,8 milhões de televisores.

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