Arquivo FolhaSetor vitalResponsável por 10% do PIB, a indústria automobilística continua sendo a grande incógnita: resultados vão depender da reversão das tendências O medo de que as atividades industriais mergulhem fundo nos primeiros meses de 1998, paralisadas pelo alto do custo do dinheiro, impede que os empresários comemorem os bons resultados alcançados em 1997. Na pior das hipóteses, uma vez que não se conhecem os dados relativos ao desempenho do setor em dezembro, o faturamento da indústria nacional foi 4% maior do que o de 1996.
A indústria paulista cresceu mais. Até outubro o setor produtivo paulista cresceu de 8% sobre o mesmo período do ano passado, segundo dados da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). As adversidades criadas pelo pacote econômico para o ajuste fiscal inibiram o consumo e levaram o comércio a uma atitude de cautela, o que levou as atividades industriais recuarem 5,8% em novembro em relação ao mês anterior. Com isso, é possível que o resultado final da indústria do estado fique apenas 5% acima de 96.
A análise de empresários e de técnicos da Fiesp é que a política defensiva do governo, embora mais rigorosa, não deverá causar os mesmos danos à economia do que os ocorridos após a quebra do México. O cenário econômico do País é bem diferente daquele que levou o governo a conter crescimento em março de 1995.
O diretor do Departamento de Economia da Fiesp, Boris Tabacof afirma que há três componentes que determinam a velocidade da expansão da atividade econômica: nível de consumo, volume das exportações e volume de investimentos.
O mercado de bens de consumo perdeu fôlego, com o esgotamento da capacidade de endividamento da população e o efeito inibidor da alta das taxas de juros, mas não há sinais de arrefecimento dos projetos de investimentos em infraestrutura, que continuam sendo animados pelos programas de privatização.
Os prognósticos sobre o desempenho da indústria de bens de consumo duráveis são sombrios. As vendas de utilidades domésticas, segundo a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), caiu 18,6% em 1997, em relação a 1996. Mas os projetos de investimentos em telecomunicações, geração, transmissão e distribuição de energia, transportes e portos deverão ajudar a afastar o risco de uma recessão na área industrial, acredita Tabacof.
Já em 1997, o faturamento da indústria de equipamentos de telecomunicações cresceu 43,7%. Fabricantes de equipamentos de geração, transmissão e distribuição de energia elétrica faturaram 14,3% acima de 1996 e de equipamentos industriais, 10,7% mais. Na média, a indústria eletroeletrônica vendeu 0,7% acima do ano anterior, o correspondente a um faturamento de US$ 35,4 bilhões, informa o presidente da Abinee, Nelson Freire.
A indústria de máquinas terminou o ano com um faturamento de US$ 16,2 bilhões, cifra semelhante à de 1996. Mas, apesar da esperada retração da economia, o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas (Abimaq), Sergio Magalhães, prevê crescimento de 5% nas vendas do setor em 1998, por se tratar de ano eleitoral, o que estimula investimentos em infraestrutura.
Exportações Outro ingrediente capaz de frustrar as expectativas sombrias dos empresários será o comércio exterior. Os estímulos criados pelo governo às exportações e o esperado esfriamento do mercado domésticos deverá levar as empresas a um esforço redobrado para encaminhar parcela maior da produção ao comércio internacional.
Os fabricantes de máquinas conseguiram exportar um pouco mais em 97, quando embarcaram o equivalente a US$ 3,6 bilhões em equipamentos, apenas US$ 200 milhões mais do que no ano anterior. O destaque é para o fato de os embarques se destinarem ao Primeiro Mundo, como os Estados Unidos e países da Europa. A performance deverá ser mantida em 1998, quando as importações deverão ser contidas e as exportações estimuladas, acredita Sérgio Magalhães.
A grande incógnita, segundo Boris Tabacof, continua sendo o desempenho da indústria automobilística. O setor, conjuntamente com clientes e fornecedores, é responsável pela formação de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) industrial, e, caso os prognósticos dos fabricantes de veículos se confirmem, poderá comprometer o desempenho industrial. O resultado depende da capacidade dessas indústrias de reverter as tendências do mercado, adotar medidas agressivas para exportação e, com isso, superar os efeitos do ajuste fiscal.

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